A distância do que somos e do que representamos é questionada no álbum de estreia do Não Não-Eu

As vezes demoramos alguns meses para apreciar da forma justa um disco e foi mais ou menos assim que chegou na caixa de e-mail o álbum de estreia do grupo mineiro Não Não-Eu.


créditos da imagem Estúdio Borda
Não Não-Eu de Belo Horizonte (MG) lançou o primeiro álbum de estúdio, Não Não-Eu, em Junho. – Foto Por: Estúdio Borda

Fiquei curioso principalmente por conta de como eles descrevem o processo de transformação que entrar em estúdio os causou.

“Este álbum representa um ritual de passagem, um processo de reinvenção. Antes do disco éramos uma coisa, depois passamos por uma fase liminar de não ser. Enquanto processávamos a proposta nem éramos a banda de antigamente e nem éramos uma nova banda. Submergimos desse estágio de não eu, investigamos com paciência nossos destinos e agora ressurgimos com uma nova identidade que ainda não sabemos qual é, mas temos pistas.

Nos abrimos para novos sons e novas experiências e o resultado é a carga de uma emoção contida que agora se revela. “Não Não-Eu” é o momento em que os sujeitos ou performers tomam consciência dos limites do ato de “representar”, é o momento em que nos apresentamos como um sujeito duplo. Todos nós representamos papéis ao viver em sociedade. E tem momentos que a gente consegue perceber a distância do que somos e do que representamos. É nesse vazio, entre máscaras, que nos tornamos “Não Não-Eu”.

Esse ato de reinventar e absorver experiências é tortuoso. Deixa cicatrizes mas nem por isso não agrega aprendizados e ensinamentos e acredito que a imersão do grupo fez isso. Aquele sonho do disco acaba ganhando ainda mais contornos, camadas e loops no caso desta banda em específico.

Na ativa desde 2012 o grupo originalmente atendia pelo nome de Lollipop Chinatown mas que devido ao processo de autoconhecimento que a gravação do disco culminou eles acabaram mudando para o forte nome extremamente conceitual, Não Não-Eu. O trio é composto por Pâmilla Vilas Boas (vocal, guitarra, synths), Cláudio Valentin (baixo, synts), Thiago Carvalho (bateria).

O disco foi lançado em junho pelo selo pernambucano PWR RECORDS que recentemente fizemos uma matéria por aqui. Para integrar o casting do selo a banda tem que ao menos contar com uma integrante mulher e o casting vale a pena conferir pois tem muitas musicistas talentosas e ótimas bandas.

Não Não-EuNão Não-Eu (Junho / 2017)



Segundo a banda o disco foi gravado 60% em casa e 40% no Estúdio Mortimer. Teve sua mixagem realizada por Diogo Strausz e masterização por audiolabpp.com.br. Já toda concepção da identidade visual da banda é assinada pelo Estúdio Borda.

O disco ainda conta com a participação do músico Fernando Motta nas guitarras e backing-vocals da faixa “Ela era uma mulher” e o João Lobo assina o tema de guitarra da faixa “Suas palavras gritam na minha cabeça”. Além disso o single “Chão”, primeiro a ser divulgado pela banda foi produzido por Raul Costa Duarte.

Para entrar ainda mais de cabeça no disco entenda antes o conceito por trás do nome da banda: “Não, não – eu” é o momento em que os sujeitos ou performers tomam consciência dos limites do ato de “representar”, é o momento em que nos apresentamos como um sujeito duplo. Todos nós representamos papéis ao viver em sociedade. E tem momentos que a gente consegue perceber a distância do que somos e do que representamos. É nesse vazio, entre máscaras, que nos tornamos “Não, não – eu”.

Essa vazio transborda nas faixas que tentam nos mostrar como somos de certa forma peças de um grande quebra-cabeça. Uma máquina forte e autodestrutiva. É forte a crítica mas viver em sociedade é mesmo um dos desafios mais cruéis e corrosivos. “Homo homini lupus” em bom português: “Homem lobo do homem”.

A introdução já deixa claro que vamos entrar em uma viagem sem volta, com sintetizadores e ruídos sampleados. O que já dá a deixa para a primeira canção do disco, “Eu Quero Fugir”.

Essa que trás uma ânsia por liberdade e por fugir para bem longe da realidade que nos consome. Tudo isso com sintetizador assumindo o controle em um synthpop delicado e contestador. A faixa faz devaneios sobre a vontade de quebrar as amarras do dia-a-dia.

“Frame” já faz a ponte entre o kraut-rock do Kraftwerk, o Ok Computer do Radiohead e o synthpop do Phantagram. Com certeza agradará fãs do duo S.E.T.I. de Campinas (SP). O tema da libertação ainda se mantém mas desta vez ainda mais dançante, o conceito de dupla persona aparece mais claro nesta canção através dos versos:

“A poesia que você me disse / a mentira que você guardou / o que foi dito, já foi dito / você sabe bem / se libertar”.

Chegamos ao single “Chão”, primeiro a ser lançado e com produção Raul Costa Duarte a canção é um trip hop com samples de interferência na conexão. Algo que para quem teve internet discada a algum dia se recorda muito bem. A canção fala sobre rendição e sobre a vitória pós-humana, tema também presente na disco da banda gaúcha Supervão.

“Quero que se perca comigo
Porque a morte me encanta
Quero que esteja comigo
Não permita minha rendição

Assim nesse mundo sem volta
Nesse corpo que se joga ao chão
Meu coração é uma nuvem nebulosa que se arrasta”- “Chão” – Não Não-Eu


Ao vivo
Não Não-Eu em ação. – Foto: Divulgação

Assim chegamos a quinta canção do álbum, “Pedro”. Esta para mim que me remete ao som do pós-punk de grupos como Depeche Mode, Bauhaus e Joy Division. Muito pelo tom obscuro, pela atmosfera áspera e a força do discurso de transformação. De certa forma ela fala sobre a impotência em não conseguir quebrar as amarras do dia-a-dia. Sendo combatido e vencido pelo sistema.

“Máquina” traz de novo o peso do Trip Hop e Trap para distorcer e passar toda a carga energética de sua essência. A canção entra no sistema nervoso do sistema para criticar a mediocridade da natureza humana, o consumismo e o cotidiano.

Chegamos a “Suas palavras gritam na minha cabeça” esta que conta com o tema de guitarra de João Lobo. Ela é forte, vibrante e transforma em acordes as angústias da vida. A dupla persona estando em constante conflito e epifania. A vontade de realizar X o que temos que nos mostrar para a sociedade. Essa eterna crise de identidade.

“Subterrânea” tem o foco nos vocais de Pâmela e a bateria tem uma levada jazz. Os sintetizadores tocam lentamente para que as sensações proferidas nos versos sejam ainda mais densas. De certa forma o processo de autodestruição para alcançar a libertação é evocado em uma das mais intensas faixas do disco.

A canção que tem a missão de fechar o disco é “Ela era uma Mulher”, esta que conta com Fernando Motta nas guitarras e backing-vocals. A apatia é a áurea canção que discorre sobre o conceito do disco. O verso mais forte consegue sintetizar todo o trabalho:

“Eu sonho em silêncio
O meu grito não tem som
A minha marca não tem cor
Meu ser é o que eu não sou”

Afinal de contas, quem realmente somos nós e quem poderíamos ser? Quantos papéis temos que exercer? Qual a razão da nossa existência? O sistema funciona para quem? Até onde podemos nos enganar? Até onde nos permitimos viver? Aonde é o fim do poço? Seria ele fundo? Qual é a saída?  São perguntas que ouvindo o disco me questionei. As respostas? Acredito que cada um tem ou não tem a sua, afinal de contas Não Não-Eu.


Não


O primeiro disco da banda mineira Não Não-Eu que foi lançado em junho pelo selo PWR Records vem para colocar o dedo na ferida. Questionar nossa função social em quanto ser humano. Nossa condição e nossa real capacidade de nos mostrar para o mundo como realmente somos. Um desafio que o conceito complexo por trás do nome da banda deixa pistas e muito mistério no ar. Um disco que foi tão poderoso para eles que teve a capacidade de mudar o nome da banda e um pouco de cada um por dentro. Para quem curtir Synthpop, experimentação, samples, post-punk, Trip Hop, Drone Rock, Kraut Rock mas principalmente bons questionamentos filosóficos os apresento: Não Não-Eu.

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