[Premiere] Leões de Marte hipnotiza o ouvinte em “A Face Mais Vermelha”

Nunca pensei que ia começar um texto da forma que este irá começar e para mim isso é uma honra sem tamanho. A alguns meses atrás soube através do André Leal (Stone House On Fire) do novo projeto do Rafael da Zonbizarro, um tal de Leões de Marte.

Como já tinha tido a oportunidade de conferir um show da Stone House On Fire (Volta Redonda – RJ)  com a Zonbizarro (Belo Horizonte – MG) e a Funeral Sex (Rio Claro – SP) no Plebe Bar em Indaiatuba (SP) resolvi dar uma chance ao projeto.

*O mais legal foi que simultaneamente naquela mesma viagem soube da existência da Miêta, outro projeto vinculado a Zonbizarro (este que conta com o baterista Luiz Ramos)

Era começo de março e separei para o listão de clipes lançados naquele mês (que rendeu, teve algo em torno de 75 vídeos) o vídeo de “Fobos”, primeiro single oficial da banda.



Na mesma época pude ouvir e resenhar o álbum da Tape Disaster (Porto Alegre – RS) este que flerta com post-rock, math-rock e hardcore. No palco do Z foi realizado o Sinewave Festival com Huey, Tape Disaster e Macaco Bong e aquele show cheio de energia do TD não saia da minha mente. Para terem uma breve ideia ouvi o Oh! Myelin por umas duas semanas sem parar para pegar cada detalhe do álbum.

Talvez por isso que no começo de abril quando estava montando o listão escrevi uma linha sem pretensão alguma sobre “Fobos”:

“Apaixonado por bandas como Caspian, The Mars Volta, Explosions In The Sky, Tool e Hurtmold? Então você precisa conhecer para ontem o som da Leões de Marte. De Belo Horizonte (MG) para o mundo o som da banda tem a cara dos sons lançados pela Sinewave Label e flerta com o post-rock, o metal alternativo, o math-rock e o rock experimental.”

Tanto o Elson como Lippaus acompanham os listões e tal menção ao selo claro que não ia passar batido. Aquelas coisas que a gente escreve e não tem noção para onde leva. Nesse caso o final foi bastante feliz.

Através do contato entre e selo e banda estamos hoje aqui: lançando o primeiro EP da banda mineira através da Sinewave. Então de certa forma fico feliz em ter colocado eles no mesmo caminho, por mais inocente e sem pretensão que tenha rolado.


LEOES
Leões de Marte de Belo Horizonte (MG) lançam hoje o primeiro EP, A Face Mais Vermelha. – Foto: Alice Speziali e Rodrigo Silva

Como dito anteriormente a banda conta com o guitarrista Rafael Dantas (Zonbizarro) mas além da Zonbizarro temos outros membros de importantes bandas locais na linha de frente. São eles Henrique Rocha (bateria), João Victor Lopes (baixo), Martin Montiel (guitarra) e Rodrigo Nueva (guitarra).

Estes que estão envolvidos com outros projetos: Soft Maria, Elíza e Lively Water. Inclusive já rolou um bate-papo com a Lively Water por aqui no Hits Perdidos para aquecer para o próximo álbum da banda. Para quem gosta de coincidências: naquele mesmo mês de março.

Como puderam observar a banda conta com não só dois como três guitarristas. O que pode deixar o som da banda ou muito barulhento ou cheio de camadas e abstração. No caso da Leões de Marte acredito que o segundo caso é o mais claro.

A banda entrou em estúdio com a intenção de produzir o primeiro EP em agosto do ano passado. Tendo como “QG” o estúdio Tubo Cultural (Belo Horizonte – MG), à partir daí foram meses lapidando, procurando referências, entendendo o espaço de cada um dentro das composições e deixando tudo redondo para o que seria A Face Mais Vermelha.

Aqui estamos nós um ano depois onde tudo começou e com o EP sendo lançado. Apesar de parecerem ser “apenas” quatro composições, temos quase 20 minutos de material e duas canções 6 minutos ou mais. Logo imaginem o nível de abstração e quebras que estas exigem.

Como pilares podemos dizer que o som tem um pouco de math-rock, post-rock, experimental, progressivo e flerta com o rock alternativo de bandas como The Mars Volta, Caspian, Mogwai, Explosions In The Sky, Toe, At The Drive-In e Pelican.

De certa forma ao ouvir me remeteu a bandas nacionais como Pollux & Castor, Tape Disaster e Ema Stoned não por soarem parecidas as viagens cósmicas mas pelo caminho em resgatar influências similares.

Leões de MarteA Face Mais Vermelha (11/08/2017)


A Face


Um EP com tanto esmero – e praticamente fechando um ano de ciclo – só poderia em cada uma de suas canções transmitir uma força tão forte como a energia transformadora das quatro estações. Desta forma para esta resenha decidi que cada faixa seria uma estação do ano por suas peculiaridades.

Assim como o ano começamos logo com o verão de “Deimos” que chega devagar e quando percebemos fisga a todos com sua alegria e explosão. Ela que começa meio cósmica, ~cheia de magia~, e introspecção feito um passeio em um deserto.

É quente e a temperatura vai subindo aos poucos conforme a atmosfera vai se consolidando. Feito as primeiras horas do dia onde o frio do sereno dá espaço para os primeiros raios de sol, ela vai progredindo através do bom trabalho de comunicação entre as três guitarras. Fãs de Mogwai, Sigur Rós e The Mars Volta vão captar logo todo o magnetismo e intensidade da faixa que termina em seu ponto mais alto.

Winter Is Coming! mas antes disso temos que passar pelo outono, certo? É bem por aí o choque de temperatura da já mais funesta, “O Quarto de Fogo”. Esta que abre com digressões da órbita da terra indo ao encontro da lava do inferno. Ela é um tanto quanto épica e me lembra um pouco o lado mais épico do metal. Poderia até estar na trilha de Transformers por seu ar robótico e apocalíptico. Ela é pesada, densa, violenta e te dá a sensação de estar perdido em um plano desconhecido.

O inverno chega em “Inverno Abaixo”, o tom é mais frio feito uma canção do Slowdive ou do Toe – uma das referências citadas pela banda – mas nem por isso toda essa energia se dissipa. Com quase sete minutos a canção consegue te contar uma história do começo ao fim através de sua frieza, tortura e dor. Algo que podemos notar em discos de brilhantes bandas como o Rakta, My Bloody Valentine, DEAF KIDS e Ride.

Em certo momento podemos até ver os pedais sendo utilizados com peso. Resgatando assim elementos do stoner rock e da psicodelia, algo que convenhamos é involuntário pelo contexto e background dos membros da banda. Talvez a magia desse EP é cada canção não obrigatoriamente conversar com a anterior mas ter órbita própria.

Chegamos a onde tudo começou e no Hit Perdido do EP: o single “Fobos”. Fobos é a maior lua – e mais interna – de Marte e tem em sua etimologia o significado de medo/pavor. No caso dos Leões de Marte ambos se aplicam, tanto é que o nome do EP é “A Face Mais Vermelha”.

Sendo assim a canção vai direto ao lado mais pavoroso de nossa mente e insegurança para refletir sobre temas delicados. O famoso “ir com o dedo na ferida” só que no campo de enfrentar nossos medos e pressões internas. Assim como a densidade da lua do planeta de fogo.

Como fã de Stone Roses, Dinosaur Jr., Sonic Youth e American Football quando ouvi “Fobos” pela primeira vez fui diretamente para outras dimensões. Ela é um math-rock cheio de idas e vindas e faz valer cada 30 segundos (dos 6:08) da canção entre suas inúmeras viradas que passeiam por vários estilos.

Consigo enxergar Alice In Chains, Metallica, Black Sabbath, Afghan Wigs e tantas outras no meio da panela sem que fique algo “Frankenstein” ou querendo soar como uma ou outra.

Lá pelo seu quarto minuto as linhas de baixo assumem um protagonismo e rivalizam com as guitarras. A escolha por encerrar com a faixa foi corretíssima. É o início de uma nova primavera.

Se vai ser o início de uma nova primavera Russa ou não, eu deixo com vocês. Em um mundo em que vivemos em um momento de grandes conflitos – e transformações – nos aproximamos a cada segundo do colapso, e esse disco “fala” muito disto.


LEOS
“Fobos” é o single mais intenso do EP. – Foto:Alice Speziali e Rodrigo Silva

Catártico, esquizofrênico, denso, violento, transgressor, voraz, bruto, magnético, disruptivo, conflitante, energético, fugaz, torto, introspectivo e cabeçudo. Estas seriam características do EP de estreia dos Leões de Marte que nesta sexta-feira (11) lançam “A Face Mais Vermelha” através do selo independente Sinewave Label (SP).

Os mineiros buscam através do exercício de empatia com acordes milimetricamente calculados passar sensações que traduzem o momento pesado e transformador que estamos vivendo. Onde vemos ódio, destruição, egoísmo e falta de respeito sobrepondo valores importantes como caráter, dignidade, solidariedade e empatia.

Com linhas criativas e entrosamento entre três guitarras eles viajam e criam camadas – e energias – distintas em cada potente faixa. Os recursos vem do post-rock, math-rock, grunge, metal, stoner rock, psicodelia, rock progressivo e a cada momento que ouvir com calma notará um novo detalhe que não percebeu antes. A aventura de ouvir este EP fica ainda melhor se naqueles quase 20 minutos de duração o ouvinte se desprender do mundo externo. Fica aqui o convite!

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