[Lançamento] KKFOS extermina palhaços e fantasmas em seu ótimo álbum de estreia

Como fã de filmes trash/sci-fi há alguns anos atrás pude assistir ao icônico filme B Killer Klowns From Outher Space (Palhaços Assassinos do Espaço Sideral ou S.O.S. – Palhaços Assassinos) de 1988. O que me impressionou além dos palhaços alienígenas aprontando altas confusões – e abduções – foi exatamente a ótima trilha sonora.

Que na verdade foi composta por John Massari porém a faixa título pertence a uma das bandas mais divertidas do punk rock americano, o The Dickies. Do filme claro saiu este belo – e pitoresco – clipe.

E é neste universo do filme todo errático e alienígena que vamos apresentar um dos mais novos e grandes lançamentos da cena mineira de rock. Pude conhecer o som da banda ainda no primeiro EP e cheguei a tocar algumas canções no programa Dezgovernadoz da Mutante Radio algumas vezes. Estou falando da Killer Klowns From Outer Space ou como eles gostam de serem chamados KKFOS.

KKFOS
KKFOS lança seu primeiro álbum nesta sexta-feira em Belo Horizonte / MG. – Foto: Divulgação

Quando soube que o pessoal que participou da campanha de financiamento coletivo, como os amigos da Roboto, já tinha conferido e aprovado a vontade de ouvir o disco cheio só aumentou. Ah a Roboto também tem um programa super bacana na web radio com foco na cena independente local, o Fuzz.

O álbum é um sonho que foi sendo esculpido a dois anos. O lançamento de Klownstrophobia só foi possível pois a campanha que pedia a ajuda dos amigos e fãs para arcar com os custos dos estúdios para gravação, mixagem e masterização teve seu objetivo atingido – e ultrapassado – com sucesso.

Então essa vitória não é só deles mas de toda uma cena independente. Inclusive do coletivo Murro que conta com bandas como Lively Water, Tempo Plástico, Green Morton, Evil Matchers, Riviera, Cordoba, Zonbizarro e Elízia.

O EP de estreia da banda tem até como capa referência direta ao filme, o que para mim é algo já sensacional como disse anteriormente sou fã do irmãos Chiodos. O EP conta com 5 faixas e foi lançado em Janeiro de 2016.

EP

Desde então o sonho em lançar o primeiro disco já vinha se desenhando e vocês sabem como é, banda independente quer deixar tudo perfeito pois nunca se sabe quando poderá voltar para o estúdio para gravar um novo álbum. Fora o peso do primeiro disco e o perfeccionismo dos músicos.

O disco de estreia recebe o nome de Klownstrophobia e foi até inevitável ao ler não lembrar da ótima banda paulista de Death Metal/Thrash Claustrofobia que está na ativa desde 1994. Não acredito que esta tenha sido uma das intenções do grupo mineiro mas metal faz parte da panela, afinal de contas eles tem influências de Stoner Rock, Grunge, Punk, Sludge e do rock alternativo. Então se você gosta de tudo que rolou no lado B da MTV nos anos 90, meu amigo, este disco é para você!

Como influências diretas e bem perceptíveis eles citam Queens of the Stone Age, Black Sabbath, Desert Sessions, Sonic Youth e Kyuss. Ao ler esses nomes fica até difícil negar a audição.

Para entender ainda mais a relação deles com o metal brasileiro, algo interessante de salientar é que a banda contou com o incentivo de Paulo Xisto, baixista do Sepultura e padrinho do baterista Aldrin, cujo pai é Christiano Salles (baterista da lendária banda de thrash metal The Mist).

Aliás o KKFOS tem em sua formação Thiaggo Tayer (vocais e guitarra), Vinicius Fiumari (baixo – ISSO), Vinicius Lira (guitarra -ex-Fake), Aldrin Salles (bateria – ex-Governator Insane). Na ativa desde 2012 eles já tiveram a oportunidade de abrir o shows para as bandas Radio Moscow (EUA) e Ego Kill Tallent. Esta última que tem Jean Dolabella, ex-Sepultura –  e Family Mob – na linha de frente.

Além de ser uma banda ativa no cenário mineiro tendo participado de vários festivais como: Festival Rock do Deserto II, Stoner Party, Festival Mamute, Rock Street e Grito Rock. Mas estamos aqui para falar sobre este grande lançamento e que disco, amigos, que disco.

KKFOS Klownstrophobia (2017)

O álbum foi gravado em fevereiro no Toth Studio (São Paulo/SP) e teve sua mixagem feita por Fernando Ueraha e Danilo Souza. Já a masterização ficou por conta de Fernando Sanches do El Rocha (São Paulo/SP).



O disco começa ao som de “Drunken Chain” que já se inicia com batuques e o peso do stoner se colidindo com o grunge áspero de grupos como Alice In Chains e Soundgarden. Aliás gostaria de deixar aqui registrado o descanse em paz para a lenda Chris Cornell que nos deixou na última madrugada em um já confirmado suicídio, uma pena, perdemos mais um dos bons e incontestáveis.

Com várias quebras ela vai te envolvendo pelo tom desértico e energia um tanto quanto xamãnica. É quente, firme e pesada. As guitarras são muito bem trabalhadas e os riffs certeiros. O bacana desta faixa é que ela tem três minutos e meio, ou seja por mais desértica que seja, não é arrastada. Ótimo acerto.

“What It Takes” vai entrar no peito de um fã de Queens Of The Stone Age e Kyuss feito uma flechada. O vocal é melódico e tem a variante que Josh Homme faz como poucos. Com retoques de rock psicodélico quase sludge que conseguem hipnotizar o ouvinte em seu solo no segundo minuto de canção.

A terceira faixa “Between Vultures and Crow” é cadenciada, em suas cavalgadas e distorções ela prende o ouvinte. Em seu último minuto – dos 5 – a canção se desenvolve em meio a solos derretidos e espírito de redenção.

Em “God’s Oblivion” entendemos o porque deles falarem que tem Sonic Youth no leque de influências. Se você ouviu o Goo (1990) vai sacar logo o tom experimental que a canção carrega. Aquela lance do “com defeito” que fez com que a banda nova iorquina se destacasse. Mas sem esquecer o lado áspero, com direito a riffs pesados do sludge.

“Confusion Ain’t An Illusion” é uma grata surpresa e com certeza separarei para futuras playlists. É o Hit Perdido do disco sem sombra de dúvidas. Ela cresce de uma maneira agradável para quem curtir rock alternativo. Quando ela parece ficar previsível, inverte com um solo matemático no meio da canção.

É legal também observar o trabalho da bateria que comanda a levada da canção e suas diversas transições. Uma canção madura e pronta para as rádios do mundo afora ou como eles prefeririam dizer: para outras galáxias.

KKFOS (credito - Marina Jacome)
Seja bem vindo ao parque de diversão macabro do KKFOS. – Foto: Marina Jacome

Mas o disco também guarda sua epopéia, esta quebrada em duas faixas. O que te convida a entrar em imersão no disco dispensando qualquer outro tipo de distração. É o caso de “Dry Lullaby” que se divide em duas partes.

O nome me remete ao do disco Lullabies to Paralyze (2005) que está longe de ser o disco mais aclamado da carreira do QOTSA. O Dry me remete a deserto então o que podemos esperar? Claro que um desert rock a vista.

A parte um é meio que uma balada com voz e violão, uma espécie de introdução que bandas dos anos 70 adoravam fazer em seus discos, estes feitos para serem ouvidos na sequência e sem cortes.

As guitarras e o rock fervoroso voltam na parte dois em alto e bom som. A melodia é o grande destaque entre o sing-a-long dos vocais e backin vocals. Em seu segundo minuto ela ganha contornos apocalípticos e nos somos agraciados com um solo de guitarra derretido que combina o stoner e o thrash.

Desta forma rumamos para a parte final do disco. “Witness Of Failure” como o próprio nome diz carrega um sentimento de culpa iminente. A introdução da música tem um magnetismo e uma construção que merece nota. Ela vai além do stoner e mergulha no campo do rock alternativo dos anos oitenta, diria até que flerta com o rock industrial em seus primeiros riffs.

É a mais Black Sabbática do disco também e abre um portal para outra dimensão. A letra é como os gringos diriam “clever” e cheia de interpretação nos vocais. Algo que só mostra que quando for tocada no show de lançamento nesta sexta-feira (19) no palco da A Autêntica vai – provavelmente – impressionar.

A penúltima faixa é “Hollow Lights” e carrega uma carga alta de emoção. Ela fala com o ouvinte olho no olho feito um confidente. Abre o peito e o coração.

Acho muito interessante como a canção é trabalhada – mais uma vez bem – em sua transição. Com riffs de hard rock e psicodelia ela mostra que a banda sabe trabalhar com diferentes texturas. Seja tocando alto, distorcido ou fazendo baladas. É uma canção para fechar os olhos e sentir o mundo desabar. Carrega as luzes da insegurança que é a arte de viver.

O que seria dos fantasmas assassinos de outro espaço sem uma ODE ao filme que dá origem ao nome da banda em seu primeiro álbum? Talvez ficaríamos sentindo falta de algo, não é mesmo?

Sintetizando o lado teatral, obscuro, pavoroso e nefasto do lado das trevas dos palhaços, “Klownstrophobia” fecha o disco utilizando do recurso teatral mais uma vez. Muito bem pensada a construção de sua introdução burlesca ao seu final derretido.

A letra até brinca com a dualidade do palhaço, o lado brincalhão quase “bobão” do personagem e suas trevas. O medo de palhaços é obviamente lembrado. Mas quem seriam os palhaços de hoje em dia que aterrorizam tantos eles? Seria uma ótima pergunta para uma futura entrevista com a banda por aqui, sem sombra de dúvidas.

Outra pergunta que fica é “Será que quase 30 anos da obra dos irmãos Chiodos teríamos nosso novo tema para um remake?”.

KLOW
Klownstrophobia” é o primeiro álbum da banda mineira KKFOS e busca através de uma maneira bem lúdica mostrar quem são nossos verdadeiros fantasmas internos, trevas e palhaços que nos perseguem. Através de riffs bem construídos, solos derretidos, cavalgadas e mistura de gêneros como sludge, stoner, punk, thrash, psicodelia, rock alternativo…a atmosfera de dor, sofrimento e desespero é construída.

Um disco inteligente e estar resenhando ele no dia em que Chris Cornell faleceu deixa tudo um quanto mais triste. Pois eu acredito que o grunge e o metal que vivem na essência do Soundgarden influenciaram direta ou indiretamente este disco ser como ele é. Um LP que deixa uma pergunta em aberto: quem seriam os palhaços que te tiram o sono?

A banda faz seu grande show de lançamento na’A Autêntica nesta sexta-feira (19) e eu estou invejando meus amigos mineiros que poderão ouvir esse disco denso, bem pensado e cheio de reflexões ao vivo pela primeira vez.

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2 thoughts on “[Lançamento] KKFOS extermina palhaços e fantasmas em seu ótimo álbum de estreia

  1. Rafa, linda resenha!!!! e os caras da KKFOS merecem!!! Hoje estaremos lá no lançamento (só para te deixar com inveja!!!rsrsrsrs) Abração da Roboto + Fuzz!!!!!!!!!!!!!!!

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