[Premiere] Lomba Raivosa divaga sobre os perigos do amadurecer em “Carpe Lobem”

O Lomba Raivosa talvez seja uma das bandas em que a loucura, a bebedeira e a tiração de onda são assuntos levados realmente a sério. A maior prova disso é a maneira em que coordenam seus shows. Muitas vezes distribuindo panfletos com as letras e muitas destas compostas no meio da apresentação.

Porém se engana quem pensa que por traz desta áurea torta, tosca e abstrata não exista muito trabalho duro. O trio faz um punk rock coeso que mistura a essência do bubblegum com personagens alá Dwarves e influências de bandas como Descendents, Ramones, Misfits, Queers, Teenage Bottlerocket e até mesmo os australianos do Violent Soho (procure saber).

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O trio Lomba Raivosa! – Foto: Divulgação

Este ano a banda completa 8 anos de atividade e nos brinda com seu quarto disco de estúdio. Após Puta Pegueira, Cacete! (2011)Trinda (2012), Choula (2013) já estava na hora mesmo de um novo álbum para segundo eles mesmos: estragar seus ouvidos.

O espírito desordeiro e o próprio ar irresponsável compõe a identidade do grupo. Tanto é que recentemente o baixista César Passa-Mal mostrou todo seu lado debochado – e desbocado – em seu projeto paralelo A Creche que lançou um ótimo disco em fevereiro. Ele pode ser visto circulando durante o carnaval pelo Bloco 77 onde já foi até musa do carnaval em votação no portal da rede plin plin (É Sério).

O disco que oficialmente está disponível hoje nas plataformas digitais já conta desde a semana passada com um clipe ~dois em um~ de “Turbilhão de Locura” e “Marionete de Satã”.



Muitas das canções do álbum para mim não foram muito novidade já que pude vê-los por duas vezes recentemente, a primeira em show realizado na Praça Victor Civita e o segundo no palco do Breve ao lado do Lo-Fi.

O álbum Carpe Lobem foi gravado, mixado e masterizado por Caio Monfort, no Estúdio Papiris. Este que está sendo lançado pelos selos independentes Laja Records e Red Star Recordings.

Aliás a data não poderia ser mais propícia: o dia da greve geral. O país em ebulição e o caos implementado. Algo tão Lomba Raivosa que “Marionete de Satã” cai feito uma luva, não precisamos nem dizer quem é satã, não é mesmo?

Lomba Raivosa Carpe Lobem (2017)



Ao uivar de um lobo no melhor estilo “o homem é o lobo do homem” o disco se inicia com “Turbilhão de Loucura”. Num punk rock reto e direto com um pouco mais de um minuto e meio o baixo é pegado no melhor estilo Matt Freeman e a letra por mais descontraída que pareça mostra o desequilíbrio de um cidadão comum que vai se enforcando em sua própria insanidade.

Quem curtir Gramofocas, Dwarves e Screeching Weasel com certeza vai pirar na levada debochada no melhor estilo “hopeless romantic” de “Enrugado”. Uma letra um tanto confessional falando sobre as famosas “sofrências” e bebedeiras por estar longe da garota que tanto gosta. Quase um sertanejo punk com muito orgulho.

O hardcore old school no melhor estilo Minor Threat – e Black Flag – encontrando Rancid num beco sem saída é a atmosfera de “Eu Nunca To Feliz”. Os sing alongs são o ponto alto da canção que tem velocidade e paradas estratégicas. A canção é quase que um atestado de derrota com CPF na nota por favor.

“Marionete de Satã” talvez seja a música que mais gruda na sua cabeça feito chiclete. Maldita música eu diria. É quase um pedido para o diabo carregar o corpo que já está cansado de tanto sofrer com as derrotas constantes. Pode isso, rapaz?

Quem curtir o som dos cariocas do Carbona com certeza vai gostar dos vocais de Testa em “O Sabor do Desespero”. Aliás o trabalho de backin vocals nessa faixa é algo a se destacar assim como o solinho punk rock. O escapismo e a depressão continua sendo ainda a temática das faixas. Pessimista até o fundo do poço.

“E eu já sei que eu vou morrer/
Sozinho, fudido, traído, esquecido/
Eu vou, eu vou morrer de desespero”  – Lomba Raivosa “O Sabor do Desespero”

“Que Quarto é Esse?” é quase auto explicativa. Aquela velha história de acordar no quarto de uma estranha e não se recordar da noite anterior. É um risco do estilo de vida solteirão que muitos com certeza se identificarão.

A sétima faixa já começa com um violãozinho e carrega o nome “Eu, Testa”, vish lá vem canção auto confessional. O desabafo fala sobre mudanças e auto crítica, algo bem na linha dos discos do Face To Face (Don’t Turn Away (1992), oi).

Aí que temos a canção mais dedo na ferida do disco. “A Elite Perfumada, Bem Vestida e Interesseira do Underground” é um recado direto para bandas que usam – e abusam – da ingenuidade e bondade de outras para se sobressair. Aposto que você conhece uma história do tipo em seu círculo social (caso for músico, claro).

É um divisor de águas no álbum que a partir daí pega outro ritmo e parte para cima. Se ouviu o EP Regaining Uncounciousness do NOFX vai entender toda a levada “braba” do som.

Na melhor pegada Burzum Marley (2004) do Mukeka Di Rato, “Pega Leve, Você Não Tem Mais 15 Anos”, soa como uma piada interna e até tira onda com o “efeito Tame Impala” de querer soar que 8 a cada 10 bandas que se intitulam como “psicodelia” utilizam. Boa sacada, caras.

Assim chegamos a “Normal” que mostra como somos “descartáveis” dentro de círculos sociais e aceitamos isso de maneira “tranquila”. Com cabeça cheia, cogitamos nos jogar na fossa – em bebedeiras noite adentro – para “aguentar o tranco” e a pressão de viver em sociedade.

“Traste” tem o espírito festeiro e desiludido do Teenage Bottlerocket que inclusive eles participaram de uma coletânea de um selo alemão em homenagem ao finado baterista da banda, Brendan Carlisle. Com um refrão que ecoa na cabeça “Eu sou um traste / E sou igual a você / um desastre/ é só o que eu consigo ser”.

Assim chegamos a “Definhando” que poderia estar presente no disco Carne (2007) dos parceiros de selo, Mukeka Di Rato. Uma faixa sobre envelhecer, não necessariamente bem e as cobranças da idade virem com tudo – de maneira impiedosa.

Mas o que seria do Lomba sem uma balada romântica? Provavelmente não seria um disco deles. Então nada melhor que as palavras deles para ilustrar esse som:

“Com vocês: “Caçador de Querubim”, nossa ode à paixão fulminante não correspondida, aquela que dói, judia da alma, massacra o coração e nos deixa em estado completamente deplorável! Ou seja, nosso tipo de paixão!” – Lomba Raivosa

A faixa conta com participações especiais do Rodrigo “Tonny Powzer” (Impatients) e Guiga Bianco (Ateliê de Loucos).

O lado power violence alá Presto?, Circle Jerks e Are You God? é extravasado em pouco mais de 30 segundos em “Sanidade na Metade”. Para quem curtir bagaceira vai com certeza colocar no repeat tentando decifrar a letra garbosa.

“Segura o Véio” seguramente é uma auto crítica e um dos temas que é tocado por mais de uma vez no disco: o envelhecer. O medo de ficar “gagá” e as cada vez mais constantes crises existenciais ao ver o tempo passar.

A faixa escolhida para fechar o disco é a pavorosa, barulhenta e escandalosa: “Carpe Lobem”. Rápida, fugaz, intermitente e macabra. Com direito a gritos, vozes femininas e claro o uivar de lobos que encerram o disco da mesma forma que ele começou.

LB
O quarto disco do Lomba Raivosa carrega muitas emoções e energias. Tem como tema central envelhecer e cada vez se encontrar mais perdido. Fala sobre fugas da realidade, arrependimentos, mágoas e desilusões. Seja ela amorosa, consigo mesmo ou com o ecossistema do underground. É ríspido, agressivo, auto confessional, dramático, sangue nos olhos e destemido em boa parte de seu andamento. Amadurecer não é fácil, o mercado de trabalho e a pressão social de família – e amigos – acabam pesando e moldando nossas loucuras.

Não é a toa que “Turbilhão de Loucura” abre logo o álbum feito uma coronhada na testa e dá o ritmo do disco. Outro destaque são as influências e o andamento do disco, por mais simples que seja o punk rock, ele uma hora cai para o bubblegum, outra mergulha no hardcore old school e por outras vezes flerta com o power violence.

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