[Entrevista] Coletivo A Porta Maldita realiza 1° evento do ano neste sábado (01/04)

“Onde não há espaço se inventa”. Essa frase tem servido como arma de combate para muitas iniciativas no independente em um mercado que muitas vezes tem suas cartas marcadas e muito lobby envolvido.
Vocês já devem ter ouvido falar de muitos lugares em que o artista paga para tocar ou tem que se submeter a tocar sem receber dinheiro suficiente para poder voltar para casa. Muitos desses locais não oferecendo sequer uma estrutura suficiente para que o evento aconteça.

Para combater esta realidade em meados de 2014 nasceu o coletivo/produtora A Porta Maldita. Tudo começou no esquema mais “faça você mesmo” possível. Com eventos a princípio organizados no quintal de casa.
Arthur Amaral (Um Quarto) até comenta que com o sucesso inesperado dos eventos, o quintal logo começou a ficar pequeno para a demanda de pessoas que se interessavam por ir prestigiar. À partir disso eles começaram a observar novas possibilidades de locais para organizar seus espetáculos.
Assim eles começaram a organizar seus eventos em uma praça ao céu aberto localizada no bairro de Pinheiros. Com shows realizados ao ar livre e de forma gratuita a arrecadação fica por conta das cervejas e das comidas vendidas no local.
O espaço começou a ser visto como democrático também por sua curadoria que sempre prezou pela pluralidade de estilos. Não é estranho ir a algum evento deles e conferir novidades da música experimental, MPB, Stoner Rock, instrumental, Punk, post-rock entre outros estilos.

A banda Largato? nasceu durante as Jam Sessions realizadas nas edições do A Porta Maldita. – Foto: A Porta Maldita

Tanto é que o público que frequenta os eventos é bem plural e entende a proposta com certa facilidade. Algo que existe desde a primeira edição é o incentivo a levar seus instrumentos para adentrar as já famosas Jam Sessions.
Ou seja, não tem banda ou está descontente com a sua atual formação? Lá é um local para fazer amizades sentindo o feeling dos acordes soltos e se conectando através da energia musical que esse tipo de evento proporciona.
Focado em música autoral, eles começaram a ter demandas de bandas do país inteiro. O que fez com que a organização começasse a se estruturar de maneira adequada com cronogramas rígidos e planejamento semestral. Como eles mesmo contarão na entrevista eles começaram com o tempo a organizar eventos também na Casa do Mancha.
Um sonho que em 2017 chega a seu terceiro ano e os frutos são colhidos a cada nova edição. Neste sábado (01/04) por exemplo será realizado o primeiro evento do ano que não só receberá os shows das bandas Um Quarto, Marrero e Terminal mas como a divulgação de trabalho de expositores. Assim o coletivo apoiando não só a música como a arte em geral.
O evento que começa a partir das 15h na Praça General Oliveira Álvares (Pinheiros – SP) contará com a exposição dos trabalhos de Duxo Durazzo (Duxo Ilustração), Olívia Lagua, Lod – Pedro Lodeiro, Antonio Henrique e Poesia Primata. Ainda conta com o apoio do selo Dinamite Records e do Rock Ex Machina.
Sendo assim conversamos com eles para saber mais sobre como tudo isso começou, planos para o futuro, como funciona, o que é ser independente e as expectativas para o evento de sábado.
Show da banda Pitaias realizado em setembro do ano passado organizado pelo coletivo. – Foto: A Porta Maldita

[Hits Perdidos] Antes de mais nada eu gostaria de parabenizar vocês pelo trabalho e toda correria. É gratificante demais observar as coisas acontecendo e toda proposta ideológica por traz do A PORTA.
Então vamos lá, contem um pouco sobre a trajetória do coletivo/produtora. Como tudo começou?
A Porta Maldita: “Você não imagina o quanto a gente fica feliz de ver que nosso trabalho tá sendo reconhecido, é extremamente gratificante pra gente ver você falar isso! Não é um trabalho fácil, realmente, mas a gente não poderia ter escolhido nada mais prazeroso de se fazer.
A Porta Maldita começou a tomar forma num quartinho nos fundos da casa do Arthur, que começou a chamar uns amigos pra tomar umas cervejas e fazer um som sem compromisso (o famoso som de sexta, até hoje quando rola é um acontecimento). A gente começou a perceber que isso podia crescer, e muito! A energia que sempre rolava ali era uma parada sem igual, e muitas vezes pessoas que não conheciam ninguém do rolê, não tocavam em banda nenhuma, chegavam lá e faziam um som sinistro, e saíam com um sorrisão na cara. A gente sabia que essa energia não poderia ficar confinada no quartinho, então começamos a montar os equipamentos no jardim, e chamar bandas, e gravar os shows, e vender brejas, daí surgiram os primeiros rolês d’A Porta Maldita propriamente dita.”
[Hits Perdidos] Com o passar do tempo o “quintal de casa” começou a ficar pequeno e a ideia dos festivais começou a ganhar praças e outras casas tradicionais no circuito independente de São Paulo. Contem como isso foi acontecendo.
A Porta Maldita: “O quintal da casa começou a ficar pequeno e inviável, os rolês estavam ganhando um certo reconhecimento. A primeira vez que saímos do quintal para fazer um evento foi no carnaval de 2015, e a resposta foi maravilhosa, colaram várias famílias, tinha bebê fofo, tinha cachorro, tinha amigos, tinha gente do rolê, enfim, foi um sucesso. Depois disso ficamos com aquele gostinho de “quero mais” e quando a gente viu que não daria mais pra fazer evento no quintal a próxima opção foi logo botar a cara na rua e fazer rolê na praça, tem sido maravilhoso desde então.
A questão das casas de shows aconteceu um pouco diferente, a gente foi contatado pelo Mancha (o próprio, da Casa do Mancha) que tinha ouvido falar da gente lááá atrás, nos eventos do quintal ainda, e aparentemente gostou do caminho que a gente tomou, e a seriedade com que a gente tocava as coisas desde o início, e chamou pra trocar uma ideia. Aí a gente começou a produzir eventos na casinha, o que é muito foda pra gente porque a gente consegue desenvolver mais ainda nossa relação com as bandas, e temos acesso a um pico que é referência na cena independente há um bom tempo. Agora também começamos a fazer eventos em parceria com o Bruno Kayapy no Pico do Macaco, que é outra casa que a gente acredita muito e que tá fazendo um trampo muito foda pros artistas independentes.”
[Hits Perdidos] Sempre observo line-ups bem diversificados e dando espaço para bandas de tudo que é tipo. Do instrumental, MPB, Stoner, Psicodélico….algo muito bacana pois diferencia demais os eventos. Além disso vocês preparam comidas e cerveja não falta!
Pude comparecer na edição da festa junina do ano passado e muito legal agregar toda a diversidade de onde vivemos a um rolê aberto a todos. Como tem sido a resposta do público aos eventos?
A Porta Maldita: “A diversidade dos sons acabou vindo como uma parada praticamente natural, porque desde o início, dentro d’A Porta mesmo, já havia essa pluralidade de gostos musicais. E sempre tivemos a preocupação de fazer um rolê que a gente fosse gostar muito, com música boa, claro, mas sem faltar cerveja e aquele rango pra forrar o estômago.
O público tem respondido de maravilhosamente bem aos eventos na praça, quando a gente começou a se instaurar na praça que estamos hoje, tínhamos um movimento bem menor. Em Abril do ano passado a gente meteu o loco mesmo, e fez evento todos os sábados, tinha brasilidade grooveira, MPB tranquilo, até roquezão de sacudir a cabeleira, e isso foi crucial pra gente chegar no movimento que a gente tem hoje. Nós vemos que tem uma grande rotatividade pelo fato de os temas dos eventos serem variados, mas também podemos perceber algumas figurinhas carimbadas, a galera que pegou gosto pelo evento mesmo e vem prestigiar porque gosta de um rolê aberto, gratuito e sincero.”
Show do Monstro Amigo realizado em Setembro/2016 na praça. – Foto: Raquel Schw Fotografia

[Hits Perdidos] Para vocês o que é ser independente?
A Porta Maldita: “Ser independente pr’A Porta, vai muito além de não depender nem estar inserido nas grandes mídias e nos padrões comerciais do mundo da música. É principalmente correr atrás do que você mais acredita, sem ter um puto no bolso e continuar insistindo naquilo simplesmente porque faz parte da sua essência. E mais ainda, juntar todo mundo que tá no mesmo corre, se ajudar, cada um ceder um espaço de oportunidade pro outro mostrar o seu trabalho, sua arte e unir forças pra fazer uma coisa maior. Que é exatamente o que a gente faz. Muito suor na testa, mas vale muito a pena.”
[Hits Perdidos] Pude observar que o envolvimento de vocês vai muito além dos eventos, inclusive ajudando os artistas na gravação de clipes como foi o caso da Blubell. Aliás como foi o dia dessa gravação? E em que projetos de certa forma contribuem para que o ecossistema do independente se mantenha?
A Porta Maldita: “De uma forma ou de outra acabamos conhecendo muita gente no meio. Fechamos a gravação da Blu, e quando ela procurou a gente, a proposta dela era mostrar a cidade, era ao ar livre, com o público interagindo, e ela viu que o nosso trabalho transmitia exatamente o que ela queria. É difícil ver uma produtora ou um coletivo independente ser inserido nesse tipo de trabalho. Isso acaba sendo uma puta oportunidade de alcançar mais pessoas e mostrar que o que a gente faz é real, importante, e que não é porque se trata de algo independente que é menos trabalhoso ou qualificado”.



[Hits Perdidos]
 Algo muito interessante que vocês fazem é sempre deixar aberto os eventos para Jam Sessions. Acredito que através delas muitas bandas se formem “naturalmente”. Já aconteceu de alguma banda vir a se formar por conta disso?

A Porta Maldita: “A Porta Maldita nasceu nesse ambiente sinergético e lindo que é o momento da Jam, isso é uma característica que a gente não abre mão por nada. Desde as Jams no quartinho da casa do Arthur, com equipamentos meia boca pra baixo, a gente já via como é importante proporcionar um ambiente desses pros músicos que colam com a gente.
Muita coisa boa já saiu daí, três dos integrantes d’A Porta tocam em bandas que nasceram na nossa incubadora (rs), Um Quarto e Largato!? Outra banda que a gente viu surgindo e tem o maior orgulho são as Pitaias, que se juntaram pela primeira vez num evento na praça só de Jam Sessions, e agora tão fazendo um sonzasso e tocando direto em vários picos (vale muito a pena conferir, as mina são zica!).
Além disso já tiveram incontáveis casos de bandas que não foram necessariamente formadas nas jams, mas que mudaram a formação, ou que precisavam de alguém porque um dos integrantes saiu da banda e eles chamaram um maluco que conheceram em algum rolê nosso, isso é sensacional, o material humano que se concentrou em torno disso tudo que a gente tá fazendo é (desculpa a linguagem) foda pra caralho.”
Lukas de Vasconcelos, tecladista do Monstro Amigo, durante evento d’A Porta Maldita. – Foto: Raquel Schw Fotografia

[Hits Perdidos] Em relação a curadoria. Eu acredito que vocês devam receber muito material e bandas do Brasil todo devem entrar em contato.
Quais os critérios que estabelecem para os eventos? E como uma banda ou artista pode fazer para entrar em contato?
A Porta Maldita: “Os critérios dependem do tipo de evento que a gente vai fazer. A curadoria apresenta as bandas pra galera, e decidimos juntos o que fazer. Recebemos bastante coisa sim, e é ótimo ver o interesse das bandas em tocar com a gente. E queremos poder dar espaço pra todas, então sempre acabamos fazendo cronogramas pra fechar o semestre. A banda que se encaixar nos temas de cada evento, chamamos. Os artistas podem enviar o material por e-mail no aportamaldita@gmail.com, ou entrar em contato pelo Facebook.”
[Hits Perdidos] Neste sábado (01/04) teremos a primeira edição do A PORTA MALDITA do ano com Um Quarto, Terminal e Marrero além de receber o trabalho de vários expositores. Queria que falassem mais sobre as atrações para os leitores do Hits Perdidos. 
A Porta Maldita: “Vai rolar um rock muito sensual, além de um stoner pesadão com muita gente maneira. Exposição de fotografia, Jam Session a partir das 15h da tarde, bar com breja e comida. E tudo isso com entrada gratuita, bem pertinho do metrô Vila Madalena na praça General Oliveira Álvares. E daqui pra frente quanto mais a gente conseguir agregar no rolê melhor. Levando todos os tipos de artistas para as pessoas verem que também não é só de música que a cena vive. Isso pode somar muito mais coisa, crescer junto e saber aproveitar esses espaços é muito importante.”

Poster por Duxo Ilustrações.

[Hits Perdidos] Contem um pouco sobre a ideologia por trás do A PORTA MALDITA e o envolvimento político de vocês para quem ainda não conhece o trabalho. 
A Porta Maldita: “A nossa ideologia vem muito de como surgimos. A gente quer proporcionar um ambiente frutífero numa área que a gente ama, e ser muito verdadeiro quanto a isso pois é isso que traz todas essas pessoas maravilhosas que estão correndo junto com a gente.
Nós não fazemos muito textão no Facebook, não levantamos uma bandeira específica, porque acreditamos que tem muito mais força mostrar pra galera que a gente pode, sim, fazer o que a gente acredita sem depender de quem tem poder, que a gente pode se juntar e alcançar patamares que sozinhos nenhum de nós conseguiria imaginar. No geral nossa ideologia como coletivo é bem simples: Bora fazer. Não consegue fazer sozinho? Chama alguém pra ajudar, ninguém tá sozinho nessa batalha que é sobreviver no cenário de música independente.”


Playlist Exclusiva A Porta Maldita @ Spotify
Para fechar pedimos para o coletivo montar uma playlist no Spotify do Hits Perdidos com artistas que já passaram pelos eventos organizados por eles e com outros que eles gostariam que participassem de futuros.
O resultado é uma lista que vai de João Perreka e Os Alambiques passando por Jennifer Lo Fi, Ema Stoned, Arara Saudita a Overfuzz.


This post was published on 31 de março de 2017 5:01 pm

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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