Com raízes piauienses Eletrique Zamba dialoga de maneira universal em seu álbum de estreia

Nada como novos ares para descobrir sua essência. As vezes passamos uma vida toda procurando nos conhecer. Alguns dizem que somos a soma entre o consciente e o subconsciente, este último que nos permite sonhar e viajar por universos paralelos onde não há fronteiras, não há limites, não existe gravidade e nossos medos e sonhos se escondem.

Talvez seja lá mesmo no meio dessas profundezas que more a nossa essência, muito além das nossas virtudes e dos nossos valores. Às vezes algumas experiências significativas ajudam com que esse processo vá se acelerando e com certeza você já deve ter ouvido falar de pessoas que foram para algum retiro espiritual e se encontraram, que foram fazer um curso de férias e descobriram sua profissão ou que simplesmente pegaram suas malas e foram se perder para se achar.

Essas respostas para tantas perguntas muitas vezes estão debaixo do nosso nariz mas nós mesmos sem os choques de realidade não conseguimos enxergar, feito míopes sem lentes de contato.

Fabio Crazy
Fábio Crazy é a alma por traz do Eletrique Zamba. – Foto: Divulgação

O projeto que falaremos hoje tem um tanto de autodescoberta em sua essência. Afinal de contas toda a trajetória de Fábio com o que seria mais tarde o Eletrique Zamba se inicia ainda em Teresina quando ele durante um curso de artes cênicas aprende  a tocar um “cavaco”, mas não da maneira mais convencional…ele logo foi tentando com afinações diferentes para fazer seu samba. Foi uma época que seu interesse por Jazz também foi crescendo, um embrião que mais tarde fez mais sentido quando ele viajou para a Europa.

Talvez este seja o ponto crucial para se encontrar de fato. Fábio Crazy (guitarra, violão, cavaquinho e vocal) então foi para a Holanda onde passou 13 anos e pôde conhecer outras realidades no cenário cultural independente desta forma ele começou a arquitetar seu plano de fazer seu “Samba Punk” a sua maneira e já foi experimentando tirar o som com em sua formação piano, batera e guitarra. Outras vivências como sua ida a Cuba também ajudaram a estreitar suas raízes com o mundo.

Sem querer soar como artista x ou y ele foi experimentando e vendo para que lados o Eletrique poderia ir. Na volta para o Brasil ele encontrou um amigo de longa data, Lívio Nascimento (guitarras, violão e backing vocals), que de certa forma já conhecia os trabalhos de Fábio e a conexão foi de certa forma instantânea.

O som do Eletrique Zamba somente poderia ser de uma forma: Universal. Toda essa bagagem de seus primeiros dias e a necessidade de se comunicar com todos para passar sua mensagem fazem com que a conexão do ouvinte seja instantânea. Eu consigo ver muitos projetos nos últimos anos com essa levada de experimentar a combinação de outros estilos quebrando “barreiras”e preconceitos.

É o caso dos colombianos do Bomba Estereo, dos baianos do BaianaSystem e dos portugueses do Buraka Som Sistema que misturam o folclore de diversas partes do mundo a ritmos envolventes como o reggae, o som sistema, a música eletrônica, o reggaeton, o axé e tantos outros.

Acredito que a melhor maneira de apresentar o Eletrique seja justamente essa: abrindo os olhos de vocês para toda essa diversidade que tem a cada dia mais conquistado o mundo. Provavelmente quem curte jogar videogame já deve ter topado com a maioria dos artistas citados através da trilha sonora da série de games, FIFA. E não seria nenhum absurdo a banda aparecer em uma futura trilha, hein?

Assim como o BaianaSystem que com certeza é a banda que mais gera identificação das citadas eles procuram ter sua estética bem definida, em suas apresentações ao vivo Fábio até confecciona máscaras para o tom folclórico e regional do Piauí ser ainda mais posto em evidência. O que acho muito necessário afinal de contas suas raízes dizem muito sobre “quem você é”.

O lançamento Vol. 1 (2017) está sendo disponibilizado através do coletivo Geração TrisTherezina, este que nas últimas semanas lançou o primeiro single do novo EP do Cianeto HC no programa do Hits Perdidos na Mutante Radio.

Na rádio no programa Dezgovernadoz #22 – já passamos dos 122 no ar – um dos membros do coletivo Valciãn Calixto pôde participar do programa apresentando não somente sons do coletivo como clássicos regionais. Um interessante trabalho que a cada dia mais é notado por outras regiões do Brasil entre erros e acertos, claro. Afinal de contas o aprendizado no independente é constante!


O Disco: Vol. 1

Através de suas 15 faixa o álbum carrega um pouco de Gilberto Gil, Peter Tosh, Wilson Batista e traz a reboque, num mashup em uma das faixas, a temática da maconha e sua liberação no Brasil com depoimento de Gil quando de sua prisão em 1976. Como citado no release do artista. Um fato um tanto quanto interessante foi que para sua concepção o disco teve a participação de mais de 20 músicos que segundo os artistas somaram de forma orgânica, sem querer soar de uma maneira ou outra, na base do improviso e feeling.

O lançamento conta com participações de músicos piauienses como Elayne Leo Neo, Fagão, Bruno Moreno, Thiago Cabral, Roraima que gravou o disco, também Arthur Raulino, responsável pela mixagem e masterização do trabalho no ATM Estúdio. O projeto gráfico ficou a cargo de Alexandra Lima, o Xixa.



O álbum após uma curta “Intro” que diz o nome da banda com um acento “gringo” já chega para passar o recado de globalização em seus primeiros segundos. “Dor Amiga” por exemplo deixa o samba, a bossa e o jazz em sintonia para prosar sobre os seus amores.

A progressão da canção é interessante em uma canção que questiona: “você diz que gosta de samba mas não quer aprender a sambar”.  E talvez viver a vida é um pouco de aprender a “zambar”.

“Furacão Tranquilo” viaja pelas ondas desconstruídas de um free jazz que flerta com o que críticos tendem a classificar como “world music”. O piano se soma a bateria fraccionada e guitarradas delicadas para mostrar a fúria deste furacão silencioso de um coração apaixonado que a canção trata de narrar. O mais interessante é observar como através de estilos tão mundialmente conhecidos a brasilidade se exalta através de sua melodia e no desespero do vocal de Fábio.

Uma preocupação do disco é fazer transições com o intuíto de passar sensações ao ouvinte. E a primeira demonstração disto vem em “E Aí, Dig Aí” que traz batuques, microfonias e pianos em uma atmosfera intimista, viajante e intrigante.

Com o coração aberto e o sentimento à flor da pele “Tempo de Amor” fala sobre os desejos e os arrependimentos. Feito um samba choroso, passar a régua no tempo e curar as cicratizes do passado é o mote da faixa.

Na sequência temos o primeiro reggae do disco. Para quem não sabe, Fábio Crazy liderou por muitos anos o grupo Narguilé Hidromecânico projeto que se tornou referência dentro do reggae feito no Piauí.

Se trata de “Cínica” que tem a levada “roots” em seu DNA. Uma canção de amor que mistura o reggae como guitarradas alucinantes, backin vocals xamãníacos e a leveza em seus 5 minutos. Espaço para experimentação e groove não falta em um reggae que absorve outras influências e atmosferas. Muitas vezes os backin vocals soam como se uma tribo de índios co-participasse da canção.

O álbum é tão aberto que abre espaço para mash-ups, trechos de noticiário, rap no melhor estilo Planet Hemp, forró, samba, música eletrônica e baião em “Olhos de Fogo”. Toda essa pluralidade mostra como a música do Piauí é rica e abrangente, bem diferente de outros grandes centros urbanos país afora. Tudo se soma em uma panela que dá todo um gingado característico. E se no mundo falta diálogo, porque não conversar com todos?

A auto-crítica transparece em “Perfeito Idiota Brasileiro (P.I.B.)” uma das mais polêmicas e politizadas de “Vol. 1”. Que fala justamente dos pequenos e grandes atos de corrupção que vemos em nosso dia-a-dia. Aquele tapa na cara que muitos ainda infelizmente precisam levar. Na entrevista que fizemos com a banda eles vão esclarecer mais sobre o assunto e essa angústia que não cabe no peito.

A lenda do reggae Peter Tosh é reverenciada em “4|20” que toca em outro tema polêmico e urgente: a legalização da maconha. A erva utilizada em rituais religiosos na Jamaica sempre esteve presente na história do mundo e por motivos “econômicos” sempre foi vista com desdém por governos e “demonizada” pela mídia.

Na faixa, a entrevista de Gilberto Gil falando sobre o “cigarrinho do capeta” também entra na salada da track que crava nas palavras de Fábio Crazy: “Para mim é 4:20 toda hora”. Assim como em dubs o rap está presente com intervenções durante a faixa que também utiliza dos efeitos de turntable em seu remix.

“Samba Vadio” mostra uma característica na maneira de Fábio empunhar o cavaco, a procura por métricas do jazz de artistas como Coltrane e Miles Davis. Um tanto quanto interessante essa perspectiva que faz misturas universais para falar de temas como “se embriagar” e o sentimento de saudade. A “vadiagem”, as rodas de samba e o amor intenso ganham até trechos em inglês em sua segunda parte.

Desta forma chegamos a terceira parte do álbum com a décima primeira faixa “De Volta ao Pó”, esta que até ganhou um clipe dirigido pelo próprio Fábio e produzido pela 6Voltz Filmes.

O vídeo lançado no dia 15/1 traz Fábio Crazy vagando com sua guitarra, máscara e skate por matagais e paisagens de uma espécie de parque. A canção é um “samba triste” de um coração fragmentado em mil pedaços de um personagem que afinou a guitarra para tocar um “punk rock” para sua amada mas não foi “ouvido”.

A ironia e o sarcasmo da faixa está presente em versos como esse. Talvez uma das canções mais sentimentais do disco que explora a temática da rejeição que o deixa o interlocutor em frangalhos.

“O Dia Todo” já começa com a temática da chuva e o adendo de instrumentos como o chocalho que desemboca em um samba/moda de viola. O cavaco cria toda a atmosfera e cadencia o gingado da faixa que fala sobre a desarmonia e o descompasso dos conflitos da vida. O instrumento de sopro dá todo o gingado triste desses desequilíbrios cotidianos.

“Preta Vambora” já chega com guitarradas alá Carlos Santana mixadas com samples e o espírito Nação Zumbi de ser. O freestyle e a loucura são exaltados em uma canção cheia de groovies e pegada. Uma canção que fala sobre as “tentações da carne”. Agradará com certeza fãs de BNegão e Os Seletores de Frequência.

Levada essa que se mantém com vibração em “Malandragem É Fome” que traz a sagacidade do rap somada a groovies do funk e a bossa. Citações a Monteiro Lobato, o cangaceiro e a história dos interiores do país. Tudo isso contextualizado a os novos tempos feito uma história viva. Afinal de contas somos o reflexo do passado mas vivendo o futuro.

Para fechar o disco a faixa escolhida foi “Cínica” em uma versão reggae/dub ainda mais pesada. Esta ainda mais alucinante que a primeira e com o peso da guitarra e dos sintetizadores. Em alguns trechos em seu fim até flerta com o tango argentino mostrando que cada vivência registrada em seu passaporte ajudou ao disco ser o que é.

Divulgação Capa
O primeiro registro oficial da Eletrique Zamba Vol. 1 é plural. Mostra a relação do passado com o presente através de mash-ups, citações, ritmos musicais, temas polêmicos e contestação. Afinal de contas não é todo dia que vemos um álbum que passeia pelo Jazz, Bossa Nova, Reggae, Dub, Rap, Som Sistema, Forró, Baião, Funk, Rock – e até um pouco de Tango podemos observar na panela. Já as temáticas passam por temas universais e urgentes como a corrupção, o descaso, a falta de união, os amores do dia-a-dia e assuntos polêmicos como a legalização da maconha.

Tudo isso sem deixar de mostrar as raízes do Piauí e seu contexto histórico que absorve influências por todos os lados. O lado folclórico é algo muito importante também na construção do disco pois os detalhes e ritmos foram sendo introduzidos de maneira espontânea com as referências absorvidas ao longo da vida dos 20 músicos que contribuem de uma forma ou outra para o trabalho. No fim das contas Fábio Crazy e Lídio Nascimento são apenas maestros de uma orquestra que conta aflições, medos e angústias do dia-a-dia de uma maneira abrangente e globalizada.

[Hits Perdidos] Como surgiu a ideia do projeto e porque Eletrique Zamba?

Fábio: “Não tenho o tempo em precisão, mas entre 2000 e 2002 eu fui convidado a integrar o elenco de um trabalho de artes cênicas, nesse trabalho eu teria que usar um cavaco, eu usava e tentava todo tipo de afinação, menos a de cavaco (haha). Comecei a compor ali, sambas de 3 acordes, daí sambas no violão, foi uma época que me aprofundei no jazz também: Miles Davis, John Coltrane, Erik Trufauz, Charles Mingus, a idéia era de criar um ‘meio-banda-sei-lá-o-que’ que eu pudesse trabalhar essas canções, que eram bem diferentes do que eu fazia musicalmente. O primeiro nome foi Electric Samba Sound System, o Eletrique Zamba foi uma busca de uma sonoridade da palavra, substitui o S por Z para ampliar o sentido, é tipo um poeta trabalhando um haikai, depois descobri que existe um ritmo argentino chamado Zamba.”

Lívio: “Eletrique Zamba surgiu em Amsterdã com o Fábio Crazy em uma formação com piano, batera e guitarra. Com a ideia de fazer música sem rótulo ou forma, a banda que contou com formação de dois gringos e Fábio (brasileiro) deu um charme especial para o Samba Punk que ele se propôs a fazer. De volta ao Brasil e com a ideia em mente me chamou pra continuar o projeto e eu topei de cara. Além da afinidade que tenho com o som do Fabio, acho que a gente pensa muito parecido …rs!”

[Hits Perdidos] O som mistura samba de morro, o batuque de terreiro, o reggae roots, a música eletrônica, jazz, e o pop. Crê que seja uma forma de dialogar com o mundo misturando ritmos brasileiros a outros universais?

Fábio: “Sim, já há algum tempo que meu trabalho dialoga dessa forma no teatro, no vídeo e na dança, agora na música com o Vol. 1. Estamos no século XXI, pra mim não faz sentido dialogar artisticamente se não for de uma maneira universal.”

Lívio: “Não deixa de ser. O Brasil é um País muito rico em ritmos e sons. Músico no Brasil aprende desde de cedo essa diversidade cultural e com isso se torna apto a tocar o que hoje é chamado de World Music. A mistura de vários estilos em nosso som vem muito do que a gente é. A gente quis transmitir o que nosso corpo fala, a nossa mente ver e o que o coração sente. Sem querer rotular nada. Nosso som soa o que a gente é com todas as introspecções, convicções, transpirações.”

[Hits Perdidos] Acredita que a ascensão de grupos como BaianaSystem, Bomba Stereo, Buraka Som Sistema, Braza pode ajudar com que tenham interesse pelo som de vocês?

Fábio: “Sim, acho que é natural esse tipo de dominó na disseminação de produtos artísticos, principalmente quando se trata de uma ”nova tendência”.

Lívio: “Acredito que o som de bandas como BaianaSystem dialoga muito com o som que estamos fazendo pelo fato de que existe um “Q” de insatisfação com o que sempre aconteceu e acontece no nosso País. Estamos falando a mesma língua, entende?”

[Hits Perdidos] O que aprendeu em Amsterdã que levou de volta para implantar em Teresina?

Fábio: “Sempre se aprende na imersão da cultura do outro, Amsterdã é uma cidade cosmopolita, há mais amigos feitos ali que são de outros países do que holandeses, não vou me ater ao conhecimento em si, no século em que estamos é possível ter acesso a qualquer conhecimento sem propriamente sair do lugar, acho que o que ficou mais latente em mim foi a relação do indivíduo com o espaço público (praças, parques e ruas), é algo que senti de mais forte e passei a valorizar mais no Brasil, até mesmo a brigar por esse tipo de acesso.”

Eletrique Zamba por Sérgio Loureiro
Fábio, Lídio e mais 18 músicos participaram do álbum de estreia do Eletrique Zamba que teve seu primeiro disco lançado pelo Coletivo Geração TrisTherezina. – Foto: Sérgio Loureiro 


[Hits Perdidos]
Pude observar que o projeto conta com participações de quase 20 músicos. Como veem que cada um agregou e como foi o processo criativo?

Fábio: “Esse disco tem o frescor da criatividade de todos esses músicos que não apenas executaram algo pré-estabelecido, mas contribuíram efetivamente na criação. Não decidimos nada de arranjos, gravamos as guias, a partir de um processo de discussão e análise de cada música nós íamos pensando qual músico seria interessante pra colaborar em cada música, assim, na medida que íamos gravando o disco ia surgindo como uma surpresa pra nós, nossa direção artística foi no sentido de nos tornamos quase desnecessários! (haahaha).”

Lívio: “Fizemos um disco com a nossa cara. O processo colaborativo de todos os músicos veio pra compor com a gente, deixamos os músicos bem livres e procuramos chamar aqueles artistas que tem um poder criativo e singular na hora do rec/play. E deu super certo.”

[Hits Perdidos] Eu sinto que o álbum também tem umas transições e ambientações interessantes entre as faixas. Foi uma das preocupações passar sensações através da ordem das faixas?

Fábio: “Sim, eu gosto de ter uma abordagem visual em caso de canções, na real, eu venho tentando diferentes formas de sempre atravessar uma linguagem com outra, em muitos níveis, seja música, teatro, dança, vídeo ou literatura. Por tudo no mesmo balaio, não é fácil!”

[Hits Perdidos] A faixa “Perfeito Idiota Brasileiro” fala sobre a “malandragem” popularmente conhecido como jeitinho brasileiro. Fala sobre a falta de empatia, as pequenas corrupções e a falta de caráter. São realidades que vemos todos os dias, qual creem que seja o melhor caminho para combater este problema?

Fábio: “Autoconhecimento, fatalmente me reconhecer em algum item da lista, só assim eu posso me reavaliar: pensamentos e ações, é doloroso se reconhecer machista, racista e corrupto, mas a real mudança sempre começa em si mesmo!”

[Hits Perdidos] No programa Dezgovernadoz (este que fazemos curadoria na Mutante Radio) tivemos um programa que Valciãn assumiu o controle e mostrou o antigo e o novo do som do Piauí. Pude ver uma ampla diversidade de artistas um quanto interessante, inclusive o Narguilé Hidromecânico esteve entre os selecionados para tocar no programa. Como explicariam a música piauiense para quem não conhece a sua história?

Fábio: “É o reflexo da própria história do lugar, sempre, né?! O Piauí foi colonizado de dentro pra fora, não pelo litoral, isso porque eles queriam o lugar pra criar pasto, boi. Há quem diga, e eu acredito, que o Bumba meu Boi nasceu aqui, faz sentido, uma vez que nós éramos o pasto do Brasil, mas ao mesmo tempo, embora exista grupos de Bumba no Piauí, nós não somos conhecidos como ”a cidade do bumba meu boi”, como é São Luís ou Parintins, saca?

É aquela teoria lá do Eduardo Viveiros de Castro de que aspectos culturais são de quem os abraça, os cultiva. Historicamente nós somos uma cidade descaracterizada arquitetonicamente, foram vários modelos europeus à procura de uma identidade urbana nunca chegada à própria e isso se reflete no indivíduo, na cultura do lugar, você pode saber mais sobre o que eu falo no livro FOGO, do historiador Francisco Alcides do Nascimento, que inclusive é tio do Lívio, então esse ‘fuçar’ vem daí, eu diria que nossa identidade é a ‘não-identidade’, falo isso como vantagem, acredito que vem daí essa facilidade de abraçar o diverso artisticamente, e sim, a resposta tinha q ser uma viagem né?! Hehe.

Eletrique Zamba - Divulgação - Sérgio Loureiro
O folclore também é expressado nas máscaras que carregam o espírito indígena. – Foto: Sérgio Loureiro


[Hits Perdidos]
Falando em Teresina, vocês acabaram de integrar o coletivo Geração TrisTherezina como observam a importância destes projetos culturais? E como funcionava na época que viveu na Holanda esse tipo de iniciativa?

Fábio: “Na Holanda, na Alemanha e em Portugal eu tive a oportunidade de conhecer e frequentar alguns squats, que foi um movimento de ocupação de prédios e locais públicos sem uso, o que resultou num movimento cultural fortíssimo, onde envolvia música, arte urbana, gastronomia, artes cênicas, houve o nascimento de uma nova organização, inclusive executiva. Isso pra mim foi um exemplo de organização independente, há muitas pessoas se organizando de forma independente na América do Sul atualmente, acredito que seja uma necessidade política, é a micropolítica! Aqui em Teresina eu destaco instâncias independentes como Geração TrisTherezina, CAMPO e Salve Rainha.”

[Hits Perdidos] Em relação a legalização da maconha, um dos temas do álbum. Quão longe e quais os maiores complicadores para o Brasil chegar lá na visão de vocês?

Fábio: “O lucro principal é de quem é dono da droga, geralmente um grande empresário com garras infiltradas na política brasileira que mantém a coisa como está por uma conveniência à custa de propinas. Não querem perder nada, nem lucro, nem propina!”

[Hits Perdidos] Para fechar, quais artistas gostariam de recomendar para abrir a cabeça dos leitores do Hits Perdidos?

Fábio: “De agora e daqui: Pedro Ben, tanto solo quanto sua antiga banda Alcaçuz, Cidade Estéril, Valciãn Calixto, o disco ‘Todos Os Santos’ do Hugo dos Santos, Baco Exu do Blues, Seu Pereira e Coletivo 401, Anohni e Speranza Spalding. De antes: Betty Davis, Som Imaginário, Black Future, Fela Kuti, Os CabeloDuro e Cirurgia Moral.”

Lívio: “Artistas como Flora Matos, Karol Conka, Valciãn Calixto, Síntese, Di Melo, Liniker, entre muitos outros que tenho ouvido e recomendo.”

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