[Premiere] Poltergat: A fúria de “Blanka” em meio ao caos paulistano

Ansiedade talvez seja o sentimento que mais cativou aos fãs do trio barulhento e fugaz Poltergat nos últimos meses. Afinal de contas após EP, coletânea Fuzz Feelings e singles o tão esperado disco de estreia estava a caminho.

Para bagunçar tudo, no fim de maio eles soltaram o webclipe da matadora “Suicidal Citezens”.

Na época o vocalista e guitarrista Gabriel Muchon até falou um pouco sobre o curta para o Hits Perdidos:

“Bom… nossa inspiração foi trazer um clima caótico, doidão, meio Hora do Pesadelo garageiro (risos). Ir pro mato e trazer a imagem do “Blanka”, nesse climão tenso, foi uma evolução de uma loucura nossa…tipo, o Blanka do Street Fighter era o brasileiro elétrico que solta raio e os caraio (sic).

A gente se identificou com essa imagem, sei lá…achamos que tem alguma relação com o nosso som e tal mata atlântica, alarme, luz vermelha, clima de confusão total. De alguma forma isso significa algo pra gente e fizemos questão de botar isso na cara do gol nesse nosso primeiro “trampo” em vídeo oficial.”

O Poltergat fez o que tinha de ser feito: colocou a mão na massa. Na cena independente isso envolve uma série de complicações extra campo da arte como por exemplo conseguir juntar a grana necessária para ficaram realmente satisfeitos com o resultado final. A expectativa só crescia e parcerias foram se consolidando.

Assim como o personagem tão brasileiro (risos), Blanka, o disco é fruto de uma parceria robusta entre Howlin’ Records e Sinewave Label. Os selos independentes tem se unido e para quem acompanha mais de perto não é nenhuma novidade, afinal de contas eles tem organizado shows e festivais coletivamente. Um exemplo que daqui um tempo com certeza servirá de exemplo para outras iniciativas Brasil afora.

Tive a satisfação de estar presente no pré-lançamento que rolou tem algumas semanas no Estúdio Aurora. Um show para os mais “íntimos” da banda com clima descontraído, embalados por cerveja e curtição. Aquele rolê família mesmo com todos querendo levar sua lembrancinha e conferir um bom som sem sair tarde da noite.

Era uma sexta-feira e além de poder conferir os shows do Poltergat e da Combover – que fizeram o que prometeram: deixaram todos surdos – quem foi pode conferir o novo merch da banda que conta até com o espremedor de alho da Ana Maria Braga, entendedores entenderão.

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Blanka está sendo lançado oficialmente hoje. – Foto por: Deco Vicente

O dia escolhido para o lançamento foi justamente hoje, o cabalístico 11.11. E que semana para se conviver em sociedade hein? Tivemos na quarta-feira com a eleição que coroou Donald Trump como presidente: o princípio do fim da sociedade ocidental como conhecemos.

E a fúria caótica do Poltergat infelizmente serve pontualmente como trilha sonora. É como se um buraco estivesse se abrindo em chamas e sugando todo resto de esperança de tempos progressistas. Serão “New Dark Ages” como diriam os punks do Bad Religion.

O trio formado por Gabriel Muchon (Guitarra/Vocais), Luis Eduardo (Baixo) e Guilherme Migliavaca (Bateria) justamente debate em seu disco de estreia o caos que é conviver em sociedade. Com um foco mais presente na cidade de São Paulo e nas pressões e cobranças do dia-a-dia. As expectativas dos outros e a sobrecarga emocional que nos sufoca e nos aflinge.

Algo que pode sim ser replicado para outras cidades, visto que os dilemas e descompassos se replicam para outros grandes centros urbanos ao redor do globo. Blanka dialoga sobre o magnetismo e o descontentamento quase escravocatra que a estrutura da sociedade moderna nos conduz. Você age no automático sem medir consequências de seus atos atrás de um sonho que não necessariamente escolheu mas foi induzido a viver.

Como nos manter equilibrados observando o barco à deriva? Como aguentar ao caos do retrocesso e não surtar com distúrbios paranóicos? Como chegar em casa e não querer mandar seu emprego para algum lugar que não podemos citar por aqui? Como viver em tempos onde relações pessoais são reduzidas a contatos? Vivemos para consumir ou para sermos consumidos?

São algumas perguntas que após ouvir o disco você fica martelando em sua cabeça mas sem encontrar respostas propriamente certas.

O álbum foi gravado no Estúdio Aurora por Billy Comodoro e Aecio de Souza e no Estúdio Subway por Anderson Lima. Ambos estúdios localizados na capital paulista. Quem assina a produção é Billy Comodoro e Poltergat. A mixagem e masterização também ficaram por conta do Billy Comodoro.

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Poltergat é (Da esquerda para a direita): Luis Eduardo, Guilherme e Gabriel. – Foto por: Deco Vicente


O disco já se inicia com a esperançosa e barulhenta balada, “Another Dream”. Essa que pilha na microfonia e resgata o poder do grunge mais sujo de grupos como METZ mas sem perder a vitalidade – e calibre – do finado Jay Reatard.

É como se fosse uma balada pós apocalíptica que Ian Curtis faria se estivesse vivo (e fosse jovem), um sonho daqueles que te tira o sono e te arrasta para fora da cama durante a madrugada. O famoso: pesadelo.

A segunda faixa é “Suicidal Citizens”, o som mistura a potência de bandas obscuras como o Wipers e o mais contemporâneo Pissed Jeans. Mas uma fonte que eles bebem e deve sempre ser lembrada é o poderoso e inigualável Sonics.

A letra de “Suicidal Citizens” fala sobre São Paulo, nossa cidade de nascença e criação. Melhor, fala sobre as pessoas que vivem nessa cidade cinza, caótica e lazarenta (risos).

Sobre o tal magnetismo dessa cidade….por mais que você odeie ela, você não consegue sair dela. E por último, cita de alguma forma mesmo que subjetiva, o incondicional amor paulistano pelo caos..por essa razão, são cidadãos suicidas.” comenta o guitarrista Gabriel

“Close Call” tem o ar áspero garageiro e poderia ter sido gravada na fazenda em que foi gravado o disco do Nirvana. O desespero se manifesta através dos rasgados acordes que soam como o cortar de uma navalha. É como se o cidadão estivesse próximo de perder o controle sobre suas atitudes.

Mas a tempestade chega mesmo na música ideal para abrir a roda de pogo “Clashdown Fever” esta que chega feito um míssel de longo alcance para bagunçar tudo. A guitarra em certo momento parece duelar com a bateria criando um clima ainda mais explosivo. S.O.S. temos um incêndio prestar a ganhar  maiores proporções.

O punk mais primitivo ganha terreno na magnetizante “Mental Crush” que parece estourar seus miolos com seu calibre apontado para sua cabeça. Mais uma vez a paranóia do amor incondicional por uma cidade que te mata aos poucos é colocada em pauta.

A próxima canção “Atlantic” eu pude conhecer antes frequentando os show da banda, eles tocaram ela em um show que pude acompanhar na NEU Club em junho.

Esta que já começa com um ar mais fantasmagórico e soa como continuação de “Suicidal Citizens”se ouvidas na sequência. Com uma levada mais solta e lo-fi ela tem seu ponto forte na crueza e na velocidade de transição.

Bebendo da fonte das incríveis bandas do casting da Sub Pop, “Nothing To Lose” é visceral, debochada e se atira de cara sem medo de ser feliz. Tem a potência do Mudhoney mas se diverte como os contemporâneos californianos do FIDLAR. É envolvente e até flerta com acordes mais “surfadélicos”. Com certeza a canção mais divertida do disco.

“Not Clever” navega pelas ondas da garageira mais sessentista e flerta até com riffs mais elaborados dos anos 70 antes de se tornar um hardcore casca grossa. É legal por conseguir pegar a energia sempre revigorante de grupos como The Cramps e The Seeds.

Talvez “Lost Subs” seja o Hit Perdido do disco, já quase no final ela vem com toda força destrutiva feito uma masmorra prestes a desabar. Ela é magnética e dá um TILT na sua cabeça com seu final debulhador.

Destoa por sua viagem alá caos mental geral e te pega de surpresa já nos acréscimos do segundo tempo. Ouvir ela em looping deve ser uma experiência um tanto quanto disruptiva já que seu final alá “Police Truck” dos Dead Kennedys nos permite isso.

Mas a canção que foi escolhida para fechar Blanka foi “Bright Lights”, afinal de contas apesar do caos que a cidade nos causa: a esperança é a última que morre. As mesmas luzes brilhantes que te cegam e te colocam para correr, tem o poder de te inspirar a seguir em frente.

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Blanka é tudo isso e mais um pouco. Além do monstro mitológico – que alguém por ironia decidiu intitular de brasileiro – é um disco que tem toda a fúria de uma mente gritando por ajuda no meio de um caos que não consegue mais suportar. Tem personalidade, é maduro, traz fúria, caos, destruição, força, punch e boas reflexões. Sua explosão está nos detalhes de uma jam garageira regada a dinamite. Time Bomb!

São Paulo por sua vez é bizarra, feito nosso monstrengo. Ela te promete sonhos e oportunidades. Te seduz feito um perfume e te tira o sono através de sua insana paranóia. A cidade não para, e quem sofre as consequências? Seus cidadãos que em troca de uma vida “perfeita” fazem as coisas no modo automático. Blanka bate nessas teclas e tenta abrir os olhos do gigante que não despertou. E a pergunta que fica é se realmente Non Ducor Duco?

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