[Premiere] O Grande Ogro apresenta: O caos poético do “Discurso para mentes em silêncio”

Bandas instrumentais sempre terão espaço no Hits Perdidos. Pois mesmo sem utilizar do recurso vocálico conseguem expressar sua mensagem através de afiadas guitarradas e linhas de baixo empolgantes que contam várias histórias.

Uma destas que já imprime a alguns anos bons trabalhos no underground paulista é O Grande Ogro uma banda que não se limita apenas a ir aos locais e tocar. É muito comum ver os integrantes prestigiando outras bandas e participando ativamente de coletivos e iniciativas que visam fomentar a cena. Um trabalho quase invisível aos olhos de muitos mas que tem um valor incrível a longo prazo. Inclusive procurem saber sobre os coletivos Rock Ex Machina e Tendal Independente.

Confira o vídeo de uma das  iniciativas do Rock Ex Machina e Tendal Independente. Coletivos paulistanos que uniram forças para realizar intervenções culturais em espaços públicos na cidade. Nele temos bandas que já falamos por aqui como a Porno Massacre, Giallos, BUFALO, Chabad, Vapor, The Gap Year, Poltergat. E outras que ainda falaremos assim que tivemos a oportunidade: Z13, Hitchcocks e St. Louis Disaster.

Mas voltando a O Grande Ogro vocês já devem ter lido por aqui tanto sobre o webclipe para a canção “Fujam Para Colinas” e sobre as Nashville Sessions, projeto gravado no ano passado. Este último que cantou com três canções inéditas gravadas ao vivo.
Depois do quase 3 anos e meio do lançamento do EP homônimo de 2013 já era a hora de um material de estúdio com faixas inéditas. E agora está disponível para audição no Bandcamp o EP Discurso para mentes em silêncio.

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A capa foi desenhada e produzida por Patrick Antunes/Old Boy.

O disco foi gravado entre abril a agosto de 2016 no estúdio Pro Infect – na zona leste de São Paulo. A mixagem e masterização foi feita por Martittin Rvbjn. Já a pós materização e mixagem foi realizada pelo guitarrista André Astro. Além de André – para quem está conhecendo O Grande Ogro hoje – a banda tem em sua formação Genésio Alves no baixo e Cesar Carlos na bateria.



E a primeira faixa do trabalho “Damos tanta importância a isto que acabamos esquecendo a verdade” já mostra as raízes do post hardcore de grupos como Fugazi e Shellac com uma sólida linha de baixo dando caminho para guitarras melódicas que flutuam na panela do O Grande Ogro. A canção ainda conta com um “falso fim” recurso que grupos como Rx Bandits e outra influência da banda, At The Drive-In usam com precisão.

Na sequência temos “Eu Treinei” e “Fujam Para Colinas” duas canções que juntamente a “Chocalho de Vacas” integram o set das Nashville Sessions (2015), session gravada no ano passado. Só que agora amadurecidas em versão de estúdio mas isso eles irão comentar na entrevista.

“Eu Treinei” em sua introdução tem aquela onda fantasmagórica da lendária dream band formada por Mike Patton, Buzz Osborne, Trevor Dunn e Dave Lombardo, sim o Fantômas. Aliás eu diria que a influência é também perceptível na explosiva “Evolução do Caos”.

Ouso falar que “Eu Treinei” é a canção que melhor representa o título do álbum, Discurso para mentes em silêncio, pois ela consegue captar o caos de um discurso mas com o silêncio de uma mente pensante reverberando os neurônios feito uma rápida frequência de sinapses.

“Fujam para Colinas” já mostra as influências mais pesadas do grupo em evidência como o som do Helmet, Fu Manchu e The Mars Volta que viajam pelas ondas de subgêneros do metal. As cavalgadas deixam o ritmo da canção hostil ao longo da caminhada ao cume da Colina. Em contrapartida a canção tem a duração de um punk rock, sintetiza técnica e experimentalismo em pouco mais de 2:30, algo digno de elogio pois sabemos que tem bandas que conseguiriam isso arrastando o som lá para a casa dos 5 minutos.

Como adiantado anteriormente “Evolução do Caos” é magnética, perturbada, sombria, e vale se atentar aos detalhes das camadas atmosféricas. Ela guarda muito no silêncio de seu caos interno. A batida de bateria e a progressão do baixo tem muito do jeito Fugazi de desconstruir aquelas velhas métricas certinhas de como fazer rock. E talvez por isso eu considere a faixa o Hit Perdido do novo EP.

O caos vai se instaurando conforme a canção vai progredindo. O peso vai tomando conta até que dá lugar a inquietação de um silêncio perturbador.

A mais curta e fugaz canção do disco é justamente “Chocalho de Vaca” que flui feito um hardcore old school onde acontece um duelo de guitarra x baixo. O nome poderia ser até algo como “pata de elefante”, já que o som da bateria cadencia o conflito e soa como a leveza do movimento que se contrasta com peso do animal cravando sua pata rente ao solo.

Chegamos então a sexta e última faixa “Pois assim que Fugimos”, a canção que é bônus no EP mostra uma faceta um tanto quanto mais experimental em relação as canções anteriores. A guitarra soa como se estivesse sido gravada para trilha de jogos de vídeo game, mais especificamente para alguma fase especial de Prince Of Persia.

Viajando aqui um pouco, na época dos celulares com toque polifônico – quem lembra? – poderia facilmente ser baixada para tal função. Divagações a parte a bateria tem uma levada um tanto quanto jazz e a guitarra soa como um teclado.

O novo trabalho do O Grande OgroDiscurso para mentes em silêncio, mostra que a banda encontrou um nível de maturidade que só muitos shows, horas de ensaio e jams conseguem calcar na carreira de um artista. O trio chega afiado e passeia por tudo que fez eles chegarem até aqui. Seja o cotidiano, a rotina, o caos instaurado e delírios de mentes pensantes. O espírito de agir e o sentimento de coletividade estão aí, você consegue perceber ao ouvir que o resultado final soa um pouco de cada um dos três.

Diferentemente de outras bandas onde por muitas vezes sentimos um ou outro instrumento mais trabalhado, você fica inquieto querendo ouvir cada linha de cada instrumento em looping. Talvez por isso você não irá querer ouvir o disco apenas uma vez, mas no mínimo umas 5 vezes.

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O Grande Ogro ao vivo no Centro Cultural da Juventude (Vila Nova Cachoerinha – SP). – Foto: Jana No Hibi

[Hits Perdidos] Porque do nome Discurso para mentes em silêncio?

André Astro: “Foi em uma discussão sobre qual seria nome do disco, entre eu e o Moisés irmão do nosso antigo Baixista Genésio Alves. Perguntei para ele sobre a banda e um nome para disco, e ficamos martelando, e como a banda é instrumental, e os nomes das musicas geralmente são complexos, tínhamos um outro nome, era maior e muito direto – que Genésio Alves tinha colocado – mas não tínhamos gastado tanto quanto o que ficou.”

[Hits Perdidos] Notei ao ver a tracklist que o EP contém 3 faixas que foram gravadas ano passado para as Nashville Sessions (2015). Era um desejo antigo gravá-las ou não ficaram muito satisfeitos com o take ao vivo anterior?

André Astro: “Acho que forma com que gravamos, live Nashville Sessions (2015) e Discurso para mentes em silêncio, foram bem diferentes. Esse agora gravamos tudo separado, no click, algo que nunca fizemos, e isso deu uma mudada nas musicas. Nashville Sessions (2015) foi como um antecedente fundamental a o outro.

[Hits Perdidos] Quais as influências desse novo trabalho?

André Astro: “Para falar a real , a vida e prazer de fazer realmente que gostamos.”

[Hits Perdidos] A capa foi desenhada e produzida por Patrick Antunes/Old Boy. Quais foram as inspirações e seu conceito?

Patrick Antunes: “Bom o meu conceito foi trabalhar em cima do nome da banda, E pelo título das músicas, comecei a contar uma “história”que tivesse certo ocultismo, Os dois personagens se conversam e são aliados por um ideal em comum, que você só poderá descobrir escutando o disco

A ilustração também traz um relógio marcando um horário, e a minha ideia era que o disco fosse disponibilizado on-line naquele horário PM.”

[Hits Perdidos] O projeto é totalmente independente. Inclusive o André realizou o processo de mixagem e masterização. Como foi o processo de gravação?

André Astro: “Sim é totalmente independente, tudo que gastamos foi adquirido pelo corre da banda, em alguns shows (cachê), e vendas de material da banda. Gravação, mix, master, fitas e cds. Estamos muito orgulhosos pois esse ano ainda não tiramos nada dos nossos bolsos.

Tentamos gravar de forma gratuita no início, na fábrica de cultura, até gravamos tudo, e levamos em alguns lugares para mixar, acho que 3 ou 4, e uma era nosso antigo selo. Em um dos lugares ficou bom do jeito que queríamos, e o Rubens nós propôs fazer tudo do zero com ele, pelo mesmo valor que ia fazer a mix.

Assim gravamos  no metrônomo e tudo separado por canal, no caso eu sempre faço uma pós depois de estar pronto. Sempre que o técnico está trabalhando estou na parte de trás falando o que fazer. Sempre foi assim, e depois do Nashville Sessions acabei aprendendo sobre alguns programas de som.. já que já tinha uma parte de equipamentos em casa.”

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Para adquirir os CDS e fitas K7: entre em contato com a banda.

[Hits Perdidos] Como observam o crescimento do cenário instrumental?

André Astro: “Acho isso uma forma muito boa, sim tem várias bandas, lugares e festivais acontecendo nesse formato, instrumental. Pois antes não existia, e acaba sendo muito plausível e gratificante ver grupos crescendo e tendo seu reconhecimento pelo publico. Isso acaba ajudando a gente e outros grupos,pois acredito e sempre vou acreditar, se um se da bem acabada levantando ou outro de alguma forma.”

Cesar Carlos: “Achamos ótimo não é uma coisa nova mas que tem sido mais observado hoje em dia e assim aparecendo mais festivas e encontro de bandas ótimas, o que causa boas trocas de experiências entre outras coisas.”

[Hits Perdidos] Ter uma banda independente é colecionar boas histórias na estrada. Tem algum show por algum fato cômico, bizarro ou surpreendente que tenha marcado?

André Astro: “Um que lembro foi do Ex machina em Paranapiacaba, uma puta vibe, no meio do mato, várias bandas fodas, algumas não conhecia.

Quando estávamos no caminho, na trilha, uma hora apareceu alguns carros de trilha com vários faróis acessos, do nada parecia dia. E lá é um breu total. Pensemos que íamos ser abduzidos ou algo parecido, paramos o carro e deixamos chegar perto, assim conseguimos identificar o que era na real.

Na mesma trilha encontramos umas pessoas indo para lá, com sacolas, barraca, bolsas, e perguntaram  para gente esse se estávamos próximos. A gente nem sabia se estava, mas pegamos tudo que conseguimos deles e colocamos no carro, não cabia mais nada, pois estávamos com instrumentos no veiculo. Senão entrava tudo dentro.”

Cesar Carlos: “Uma vez tivémos que mudar toda parafernália pois íamos tocar numa varanda, porém não era coberta e começou uma chuva após o vizinho do local fazer uma dança da chuva porque estava reclamando do barulho e tocamos na sala da residência onde estava rolando evento. Tocamos ao lado de um aquário enorme que deu um ar inusitado ao som e o povo tudo espremido dentro da casa e pendurado nas janelas, era no bazar amor na vila Madalena que a Yara Tinha nos convidado.”

[Hits Perdidos] Falando em show, como foi a experiência de tocar naquela ocupação em 2015?

André Astro: “No caso não tocamos e sim apoiamos e contribuímos em alguns casos, mas não tocamos por alguma questão de logística na época, vontade não faltou.”

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[Hits Perdidos] A veia política é algo muito marcante na história do O Grande Ogro. Como vem as mudanças e transformações que não só o Brasil está passando mas o mundo todo?

André Astro: “Acredito que isso ia acontecer, faz um tempo venho comentando com as pessoas sobre, pois era só olhar para fora, todos os lugares em crise, e só aqui que não? Estranho isso, né?

A maior parte da população brasileira não tem conhecimento algum em política, não sabe na real que esta acontecendo, vêem só que é demostrado de forma manipuladora pelas mídias. Eles acreditam nisso, no que vê que ouvem, e isso acaba agravando no que está acontecendo agora.

Não temos formação política alguma, e hoje não há um líder que realmente aponta, faça algo em prol de mudanças e que de fato faça a grande massa ver o mínimo da realidade. Mas também vejo o fato de que a maioria das pessoas são acomodadas e não querem lutar. Se elas tiverem sua TV, seu carro e a internet funcionando elas se sentem felizes e satisfeitas.

Transformação só vai acontecer com revolução, e não uma revolução pacífica. Se não lutarmos vão sugar o pouco que temos e ficará por isso mesmo.”

[Hits Perdidos] Quais bandas indicariam para os leitores do Hits Perdidos?

O Grande Ogro: “Dharma Samu,  Z13, ralo, testemold, krokodil ,Hitchcocks, elma, test megazord (Big Band), Trompa, ordinaria Hit, Noala, Hurtmold, Giant Gutter from outer space, Dolphins on Drugs, Campbell Trio, Maqno., Matric, Lucertulas, Rain, Retox, Shellac, Loinclocth, Jars, eeva, Bowl ethereal, sumac.”

[Hits Perdidos] Quais álbuns favoritos de cada um de vocês?


André Astro
FugaziArgument (2001)Bowl etherealfive minutes (2013)Campbell Trio –  3-Way Split With Zatt & Quiebre (2015)SumacThe Deal (2015).


Cesar Carlos
: NirvanaNevermind (1991), Black SabbathParanoid (1970),
PixiesBossa Nova (1990).

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