Coutto Orchestra traz ritmos ribeirinhos mesclados com beats modernos em Voga

Hoje vamos cruzar as águas de um dos mais importantes símbolos do país, o rio São Francisco. E é do suor, dor, sofrimento, paixão e garra de cada dia que temos fragmentos de histórias da população ribeirinha em um disco atemporal. Esta que é tão negligênciada por governos.

Não é preciso mais do que uma rápida pesquisa para notar como é uma região carente de médicos, saneamento básico e que vive sob condições de sobrevivência. Mas por outro lado tem uma riqueza intangível de ensinamentos, um folclore riquíssimo, lições de superação, solidariedade e perseverança. Talvez por isso seja um povo aguerrido, batalhador e cheio de paixão.

E foi na missão de desbravar toda essa vontade de viver da região que a banda sergipana Coutto Orchestra embarcou em uma viagem pelas águas do gigante rio São Francisco. Um sonho que nasceu em disco anterior, Eletro Fun Farra (2013) mas que ganhou asas após a parceria com o projeto Natura Musical.

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Coutto Orchestra no povoado de Bonsucesso durante a viagem. – Foto: Melissa Warwick

A viagem rendeu muitos frutos e histórias que com toda certeza estão gravadas para sempre na memória dos tripulantes da embarcação. Foram 25 dias e diversas localidades foram visitadas entre março e abril. O trajeto se iniciou de Poço Redondo e foi finalizado em Brejo Grande – percorrendo os estados de Sergipe e Alagoas.

Embarcaram na viagem: Alisson Coutto (teremim, programação eletrônica, baixo e coro), Vinícius Bigjohn (sanfona, programação eletrônica e coro), Rafael Ramos (violão, baixo, teclado e coro), Fabinho Espinhaço (bateria) e a tripulação do barco composta por cinegrafistas, fotógrafos, figurinistas e produção.

O ritmo das remadas, sinfonias e folclore local com toda a certeza agregaram de maneira ímpar no resultado final. Tudo isso de maneira repaginada, afinal o tempo não para e experimentalismos são bem vindos na panela da Coutto Orchestra. A ousadia mora justamente na mistura com a modernidade dos beats eletrônicos do Dubstep com o forró, xaxado, baião e o sons ambientes captados durante a epopeia.

Na última quarta-feira (4) – no dia do padroeiro do rio São Francisco – foi lançado oficialmente através do selo Natural Musical contendo 12 canções (11 delas inéditas) com destaque a segunda faixa “Senhora Dona” versão de uma grande influência do conjunto, o mestre Alceu Valença. O mais interessante é ver como tudo foi muito bem – me desculpe o trocadilho – orquestrado.

Além do diário de bordo que narra as aventuras e relatos vividos ao longo dos 25 dias, os áudios captados durante a viagem entraram de fato no disco. Em breve também será lançado um documentário retratando a experiência de desbravar o trajeto que carrega tanta identidade, angústia, história, conflitos e como não poderia deixar de ser: amores.

Gratidão também é um sentimento presente em Voga. O shows de lançamento do disco além de passar por três capitais do país (Aracaju, Belo Horizonte e São Paulo) serão realizados também em duas comunidades ribeirinhas. A turnê contemplará a cultura da região não apenas na sonoridade registrada no disco como levará referências culturais para o palco. Ou seja, apresentações serão no mínimo uma verdadeira experiência antropológica.

Voga Ouça o disco

A experiência é conduzida desde a primeira faixa sob os olhares do capitão da embarcação que parte para sua última viagem à bordo. O sentimento de nostalgia, vivências e experimentações dão a tônica do calejado e cansado navegante.

Voga significa o movimento ritmado das remadas das embarcações, mas também “nova moda”. E de certa forma encaixa com a proposta de contar sim sobre a história do nordeste mas tem a missão de mostrar a realidade contemporânea da região.

Afinal de contas através da internet e da globalização estamos a poucos cliques de conhecer novos ritmos, tendências e aprimorar com outros viéses: elementos do passado e presente. Assim como o leme de uma embarcação, o mundo gira a todo vapor e tudo se transforma de maneira mais rápida em menor tempo do que no passado. E claro isso gera conflitos entre manter suas raízes intactas e se deixar levar por outras. Já a banda junta de maneira inteligente o melhor das duas realidades que parecem viver em conflito.

A primeira faixa “Voga” já chega tirando a âncora das profundezas do rio São Francisco e orquestrando a história do velho capitão. A ambientação é o grande destaque, visto que desde os primeiros momentos o grupo utiliza do recurso dos badalos de bode sintetizados com o barulho do vento. A bateria certas horas soa como batuques de atabaques e se choca com a levada moderna – e globalizada – dos beats eletrônicos.

Você se sente convidado a navegar pelos mares – e dramas – internos no trecho poético:

“O meu corpo é como navio /
Ou um barco sem capitão /
Nessa terra de mar nenhum /
Cada um /
mas cada um /
é seu próprio mar” (“Voga” – Coutto Orchestra)

O disco é sobre o ontem e o hoje. E nada como revisitar um dos maiores compositores da música nordestina, o pernambucano, Alceu Valença. A canção escolhida para a homenagem é “Senhora Dona”, presente no disco Rubi que este ano completou 30 anos.

As principais influências da Coutto Orchestra segundo Alisson Coutto são: Quinteto Violado (que serviu de base na pesquisa sobre o Velho Chico), Gotan Project e o próprio Alceu. Ou seja, não teria como não prestar esse tributo de maneira ímpar e com muito carinho envolvido.

No ritmo embriagado da sanfona a canção ganha em sua batida o recurso do dubstep e sons de uivos. A felicidade foi saber que a canção teve a participação do grupo de xaxado, Na Pisada de Lampião. Eles que são oriundos da comunidade de Poço Redondo (SE), direto do alto sertão sergipano. Gol de letra pois resgata mais um pouco da história riquíssima da região, visto que Poço Redondo é lembrado pelo lugar onde o cangaceiro Vírgulino Ferreira da Silva (“O Lampião”) foi morto na fazenda Angicos.

Se o disco é sobre a última viagem do barqueiro, nada como resgatar todas as lembranças que os entornos do Velho Chico nos trazem.

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O álbum Voga (2016) pode ser considerado o resultado de uma odisseia antropológica às margens do Velho Chico. – Foto: Melissa Warwick

O lado apaixonado e viajante se esconde atrás dos versos desconfiados de “A Barca”. Uma canção que destoa por sua veia trip hop que vai de encontro com elementos do xote/forró.

A faixa mostra um pouco da carga de sentimentos que colocamos sobre as nossas vivências mundanas. Seja nas conquistas, ilusões, glórias ou decepções. Afinal somos o resultado de tudo que nos levou até o presente momento: uma barca – que balança e se acalma – entre marés altas e baixas.

“Adorno” deixa os beats de plano de fundo para que a sanfona brilhe e o violão marque o passo. É interessante como utilizam o recurso fonético que dá duplo sentido sentido em “Ardor” e “A Dor”.

“Há uma dor no meu peito /
Um ardor no meu peito /
Um adorno no peito que vem me dizer” (“Adorno” – Coutto Orchestra)

Esse recurso também é interessante pois mostra através dos beats – que soam como o motor da embarcação – como apesar das dificuldades e golpes da vida somos obrigados a seguir em frente. O amor em sí é o grande condutor dessa barca recheada de altos e baixos.

O disco ganha um tom dramático e de certa forma teatral em “Gnominado”. A quinta música do disco conta com a participação de Danielzinho Quarto de Milha, conhecido cantor de vaquejada e de samba de coco do povoado quilombola do Mocambo (SE).

Lembram quando disse que a pesquisa era peça fundamental no ato de contar a história da região? Pois bem, um dos principais personagens do sertão não é esquecido na prosa de mão cheia. Vozes de personagens como a de Seu Zé Muído se transformam em uma brincadeira-musical em loop.

Elementos tradicionais como o triângulo, sanfona ganham um tom orquestrado no caldeirão da parceria que traz ainda elementos do dub e trip hop – que mais uma vez dá o caldo.

O lado folclórico da região do Velho Chico ganha asas e melodias suaves em “Barco de Fogo”. Que explora justamente a tradição do barco de fogo – elemento da cultura nos festejos juninos de Sergipe, onde um barquinho em chamas se move por um cabo de aço.

Além disso, também temos a ponte com outra arte: a poesia. A atriz sergipana Diane Veloso recita o fragmento do espetáculo Vulcão, com texto da dramaturga Lucianna Mauren.

As tormentas e conflitos da vida mostram como a realidade nem sempre “são flores”. O vulcão pode sempre despertar ou ao menos ameaçar com que tudo que parecia por um instante perfeito: desmorone. Os sintetizadores ajudam a retratar a tormenta em sua sonoridade e as sanfonas não deixam esquecer das origens.

Se a canção anterior fez uma ponte entre a cultura local e o moderno, a seguinte “Desato” se atira de cabeça nesse oceano de emoções e histórias ribeirinhas.

A faixa conta com  tambores da Banda de Pífano Sagrado Coração de Jesus, do Povoado Entremontes (AL) e os cantos e pisadas da tribo indígena Kariri Xokó, da Ilha de São Pedro (SE). O ritmo também é pegado na parte dubstep/trip hop que dão uma tônica interessante no contraste com as pisadas da tribo. É o choque entre a tradição e o moderno.

Talvez o ponto alto seja no minuto final da canção onde os instrumentos e loops ganham toda a força e sobem a maré de maneira um tanto quanto progressiva. Ouvir os cantos da tribo em meio a tambores e loops deixa tudo um quanto disruptivo.

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Do tribal ao moderno: disco explora todas os contrastes vividos pela população ribeirinha. Foto: Melissa Warwick

No disco também teve espaço para uma releitura da própria banda. No primeiro disco tínhamos a faixa “Flor” que teve sua letra escrita pelo compositor pernambucano Barro da banda Desinée. Já em Voga (2016) a canção ganhou nova versão: “Ilha das Flores”. Canção que tem o mesmo nome de uma humilde comunidade ribeirinha.

Uma curiosidade fica por conta de que Barro  que embora nunca tivesse ouvido falar sobre aquele povoado, descreveu aquela comunidade exposta à pobreza e à negligência do mundo nos versos:  “e me leva pra Ilha das Flores/das flores que o mundo não vai regar”.

A dor do “lugar esquecido” é dilacerado atrás de uma delicada canção, que pétala sobre pétala mostra seus espinhos. O tom crítico ao esquecimento ganha força não só através da poesia mas como seu final que soa como um cortejo. Seria apenas daqueles que ali estão ou seria o barco que está próximo à deriva com seu capitão a bordo?

“Luar” traz o som das águas, o encanto da calmaria e o brilho do luar. É uma balada melancólica a espera de que a corrente do rio o leve deste mundo. O instrumental sentimental mostra que a tristeza e o desprendimento com este universo está prestes a ser consumado.

Em “Cruzcão temos o registro dos cantos de Zefa da Guia, uma das mais conhecidas benzedeiras da região. Mostrando que a superstição e o curanderismo são marcas intrínsecas de uma região que sobre problemas como saneamento básico – e com a falta de médicos.

Misticismo e folclore se misturam neste canto “esquecido” pelo resto do mundo. O disco por sua vez mostra que mesmo com a globalização: lugares como os povoados ribeirinhos conseguem manter as tradições de maneira forte.

Feito uma canção de violeiro com poesia que fala justamente sobre o fim da voga: “Quando a voga para, o coração ancora.”

“Rebento” mistura a densidade do trip hop do Massive Attack com a regionalidade de ritmos como o forró – e metais do dub jamaicano. Mais uma vez a globalização mescla os universos e se transforma em voga. O personagem do capitão a essa altura já sabe o que lhe espera, afinal de contas sua jornada está próxima do fim. O fim da canção soa como os últimos suspiros do cansado navegador.

E “Belmonte” já começa com o som denso da respiração ofegante de quem sabe que o barco está prestes a virar. E a poesia que culmina no fim serve como narrativa para fatos da vida real.

A pequena e inabitada ilha de Belmonte guarda o silêncio das crianças enterradas ali, com seus nomes marcados nas cruzes fincadas ao longo de uma subida que culmina com a vista aberta e calma do rio São Francisco.

O álbum traz o resgate de histórias de comunidades que se não fossem registradas provavelmente morreriam ali feito uma voga. O interessante do trabalho justamente é este: contar histórias através de intrigantes relatos (que podem até ser lidos no diário de bordo) de uma maneira um tanto quanto moderna e contemporânea.

O disco sauda sim o passado mas mostra a perspectiva e contrastes do momento atual através de um viés moderno. As parcerias com artistas das comunidades do entorno do Velho Chico fazem com que o resgate seja ainda mais profundo e se aproxime ainda mais da realidade local.

O folclore e a mistura com o moderno dos beats eletrônicos mostra como a barca está sim em constante movimento. Quem sabe a partir do disco, relatos e em breve documentário finalmente os governos abram o olho para a carência e importância dos valentes e solidários habitantes do rio São Francisco.

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