Dvrill: A tempestade do grunge acústico e a busca pela plenitude da alma

“As vezes temos que dar a volta ao mundo para encontrar o caminho dos nossos sonhos.”

Acredito que esta frase seja o melhor jeito de começar um texto sobre o mais recente projeto de Denis Cardoso, a Dvrill. Mas o envolvimento com o mundo da música vem de muito antes e do melhor lugar para se conectar a arte: sua própria casa.

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Denis Cardoso cresceu ouvindo rock.

Nascido e criado em São Paulo, Denis cresceu ouvindo música graças a seus pais que colocavam para tocar na vitrola: Elvis Presley, Raul Seixas e Roberto Carlos.

Já na adolescência com sua rebeldia de corpo e alma, ele começou a ler as revistinhas de música, frequentar as lojas da Galeria do Rock, comprar CD’s, pirar com os grandes clipes lançados pela MTV Brasil e como consequência: a Maldita bateria foi parar em suas mãos. Com isso ele começou a tocar seus primeiros projetos. Era uma escolha sem volta.

Em 2004 teve sua primeira aventura no mundo do rock, a banda Against Myself, onde tocava diversas versões de clássicos dos anos 90 e 00. Depois ainda na batera, ele fez parte de um tributo de Days Of The New.

Mas tocar bateria acabou ficando pouco para ele. Em busca de uma maior musicalidade, domínio das composições e mais liberdade foi despertando seu interesse pelo violão. Algo totalmente relacionado a suas bandas prediletas que permeiam vários estilos mas seu coração ainda veste flanelado, o grunge cinzento de Seattle é a sua praia.

Lá para 2011 ele foi co-fundador da banda Back In Bones, onde por sua vez assumiu os vocais, empunhou o violão e compôs boa parte das canções do grupo. Chegando a excursionar pelo interior de São Paulo com o projeto que por questões individuais de cada um seguir seu próprio rumo, chegou ao fim em meados de 2013.

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A bateria foi a porta de entrada para seus primeiros projetos musicais.

Mas quem disse que a vida é uma linha reta onde conseguimos fazer tudo da mais perfeita maneira e simplesmente viver dos seus sonhos? Com o início da faculdade de Desenho Industrial e trabalhando que nem louco no mercado financeiro, a contra-gosto Denis teve que se afastar um pouco da música. Quando tinha algum tempo, ainda arranhava o violão, com o tempo passou a ser inviável ignorar essa vontade de voltar a tocar e compor músicas próprias novamente.

O rock’n’roll as vezes desperta algo insano em nós mesmos, e a prova disso foi quando ele largou o cargo alto de Diretor em banco para trilhar sua carreira. Algumas pessoas claro que julgaram sua decisão, mas nada como buscar a felicidade plena, não é mesmo?

Depois de uma decisão tão radical – que com certeza virou sua vida de cabeça para baixo – ele resolveu além de seguir seu sonho como artista e administrar sua carreira com a atenção que isso deve ser feito.

Após os primeiros arranjos que deram origem a canção “The Lion’s Rise” no segundo semestre de 2014, nascia a Dvrill.

Por ter experiência com design, fazer um site não foi um dos maiores desafios mas com certeza já quebra uma barreira que muitas outras bandas tem que passar em terceirizar esse tipo de serviço.

Além disso ele está preparando seu primeiro disco, 11:11 (2016), que tem planos para sair até o fim do ano. Mas podemos ter uma pequena amostra do que está por vir com as canções que Denis liberou ao longo dos últimos 2 anos.

Inclinado ao rock alternativo, com pés no grunge, violão em suas mãos ele mesmo descreve seu som como: rock acústico alternativo.

Aos 33 anos, o multi-instrumentista (voz, violões, bateria e baixo), além de músico e Bacharel em Desenho Industrial acabou se tornando produtor ao longo dessa jornada. Até o momento ele tem divulgadas apenas quatro músicas, mas já é um bom aquecimento para o que em breve está por vir.

Mas sei que nesse momento vocês querem saber menos sobre a história do Denis Cardoso e conhecer mais sobre o som da Dvrill, então o pedido de vocês é uma ordem.

Como disse anteriormente o projeto nasceu logo depois que ele compôs a canção “The Lion’s Rise”:

 

Essa canção em sí me lembra os trabalhos mais experimentais do Tool, para não dizer: A Perfect Circle. Tive a oportunidade de ver o show do projeto paralelo do vocalista do Tool durante uma edição do Lollapalooza. Confesso que nesse festival fiquei aguardando o cover “The Nurse Who Loved Me” (Failure), e ele não veio mas foi um baita de um senhor show.

Mas voltando a composição do Dvrill, a canção é instrumental e tem cerca de um minuto e 20 segundos, algo como se fosse a introdução de um disco. Um bom artifício para abrir os shows se bem utilizado.

 

“You’ll Shine” já começa trabalhada no dedilhado, os arranjos são calculados e os violões conversam feito faísca. O vocal de Denis tem a potência e envergadura do timbre de voz que Eddie Vedder utiliza. Devido a semelhança te remete a carreira solo do vocalista do Pearl Jam, que muitas vezes é mais interessante do que os últimos lançamentos do grupo. Mas a destreza de Mark Lanegan também pode ser vista nos backin vocals que ele mesmo faz na música. Consigo até imaginar a música sendo executada na Kiss Fm.

 

“By My Own” é gelada, emotiva, rancorosa e tem aquele espírito que é caminhar pelas ruas largas e cinzentas de Seattle. Acredite se quiser mas a tristeza da cidade paira no ar. Talvez a única semelhança entre São Paulo e Seattle seja os dias cinzentos no inverno, ainda bem.

O legal é ver por exemplo é ver como grupos chamados de college rock, como Hüsker Dü influenciaram o grunge de maneira pontual. O lado mais trabalhado dos arranjos dessa canção te puxa para a veia e marca registrada do grande Alice In Chains e do incrível Stone Temple Pilots.

 

A essa altura seu ouvido já está viciado no grunge, mas eu consigo notar em “Wake Up” um pouco de New Metal de grupos como Limp Bizket e Korn – em suas canções em que deixam um pouco o rap de lado. A progressão da canção também te remete ao lado mais pirado de John Frusciante na época – mais pesada de drogas – do Red Hot Chili Peppers, o punk, o folk e obviamente o grunge.

O que só te deixa com bastantes expectativas sobre o primeiro álbum do artista paulistano. Para saber mais e ouvir com suas palavras sua história e seus rumos, entrevistei Denis Cardoso, a alma em fúria por trás do Dvrill.

[Hits Perdidos] Primeiro gostaria que você se apresentasse e com as suas palavras falasse em como chegou no ponto que está. Você nos últimos 10 anos tem tido projetos musicais diversos porém recentemente largou tudo – trabalho de escritório – para se dedicar a música. Como foi isso?

Denis Cardoso: “Sou Designer de Produto por formação, fui gerente de banco e diretor comercial por anos.  Minha vida foi marcada  por diversas situações malucas, mas foi durante um problema de saúde que decidi fazer o que eu vim pra fazer…Larguei tudo, e resolvi cair na estrada, compor, conhecer pessoas e viver de verdade. Sem mais máscaras para agradar ninguém.”

[Hits Perdidos] Como as pessoas reagiram a você ir atrás de seu sonho?

Denis Cardoso: “Foi um pouco complicado, pois vim de uma criação onde a prioridade era ter o futuro garantido. E depois de tantas idas e vindas, altos e baixos, vi que não existe nada garantido, talvez a única garantia, seja a de ter procurado ser feliz com o que realmente gosta de fazer na única vida que se tem …. Algumas pessoas apoiam, outras criticam, mas o que vale nessa vida é saber o que se quer e correr atrás do que se gosta.”

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Nos shows ele tem a ajuda de músicos que conheceu ao longo dos anos.

[Hits Perdidos] Você além de músico, é produtor, é tem bacharel em desenho industrial. Sua formação te ajuda em algo na administração da carreira como músico?

Denis Cardoso: “Ajudou e ajuda (risos). A faculdade me deu noções sobre ter qualidade em tudo que se faz, no cuidado aos detalhes, etc.
O site da banda é simples, mas eu que fiz a estrutura, diagramação, cor, textos, basicamente tudo. Está simples mas convido a todos a conhecerem.

Eu tentei fazer outra faculdade alguns anos depois – de análise de sistemas – e atualmente faço pós em comunicação. Quando fui trabalhar em uma instituição financeira fiquei por mais de 5 anos como gerente na área comercial e aprendi a ter mais interação com pessoas. O que me ajudou porque eu realmente gosto dessa troca. Seja com os fãs, conhecendo pessoas, ouvindo histórias e fazendo novos amigos.”

[Hits Perdidos] Você afirma ter preferências por violão à guitarra na Dvrill. Porque?

Denis Cardoso: “Sei  que em primeira instância pode soar como algo acústico, mas a proposta da Dvrill é justamente o contrário, é mesclar peso e agressividade, melodias e dedilhados sempre enfatizando o violão, elevando ao patamar de acústico para rock acústico alternativo.”

[Hits Perdidos] Como faz para tocar em shows sendo One-man band?

Denis Cardoso: “Ideologicamente é uma banda de um cara só, mas durante esses anos que toquei fiz grandes amigos e parceiros musicais que me apoiam na estrutura dos shows.”

[Hits Perdidos] Gravou tudo sozinho? Conte sobre a breve história das 4 faixas gravadas até então.

Denis Cardoso: “Sim, geralmente eu gravo as ideias, instrumentos e demos em casa e depois vou pro estúdio. As demos de “By My Own”, “Wake Up” e “You Will Shine” foram feitas em 2011/2012, e as versões finais eu gravei no Estúdio Cosa Nostra (localizado em Santana, zona norte de São Paulo), com o meu parceiro Sidnei.

Já “The Lion’s Rise” é um interlúdio entre uma faixa e outra que escrevi durante um difícil processo de autorreflexão com a perda de um parente próximo… foi uma fase difícil.”

[Hits Perdidos] Como você conta, sua raízes no rock vieram desde cedo de casa com artistas como Raul Seixas, Roberto Carlos e o Rei do rock Elvis Presley. Ouvindo seu trabalho senti um pézinho no grunge, é o estilo que mais admira?

Denis Cardoso: “Sim, sou muito eclético quando se trata de boa música, mas sabe… eu vim do rock e a minha escola realmente foi o grunge e todo aquele movimento da música em geral dos anos 90 que me afeta até hoje (risos).”

[Hits Perdidos] Sinto no teu som Pearl Jam, Soundgarden, Alice In Chains mas principalmente – ao som dos meus ouvidos – Screaming Trees. Quem te influencia mais Mark Lanegan ou Eddie Vedder?

Denis Cardoso: “Alice in Chains, Days of The New, Tool e Pantera  e todo o arsenal de bandas da década de 90 são as minhas maiores influências. Acredito que por ter um contato maior com o material eu fui mais influenciado pelo Eddie Vedder, mas Mark para mim é um mestre também.”

[Hits Perdidos] Tem planos de lançar um EP ou álbum cheio?

Denis Cardoso: “Sim, o álbum se chamará 11:11 devido a aparição deste número repetidas vezes durante o processo de criação do disco. Ele terá 13 músicas autorais, todas escritas e compostas por mim. .”

[Hits Perdidos] Como tem organizado a carreira agora que está investindo pesado nesse sonho? Tem procurado eventos, palestras, assessoria, selos, casas…para divulgar seu som?

Denis Cardoso: “Atualmente estou no Cosa Nostra em fase de pré-produção do material para o álbum, em um ou dois meses irei para Nova Iorque finalizar as gravações, produção e divulgação do 11:11.

Algumas casas de show na grande São Paulo nos dão suporte para espaço e divulgação, a pouco tempo atrás conversei também com o Brito Jr. dos Titãs, ele disse que gostou do som, apesar de ser em inglês, e falou para eu seguir em frente com meu sonho (risos).”

[Hits Perdidos] Você diz ser produtor, como é o processo em estúdio?

Denis Cardoso: “Eu tenho um home studio, e assim gravo minhas ideias e demos, tudo sempre começa no violão. Depois entro em processo dos registros de obra, após isso começo a pré-produção de cordas, voz e bateria e vou lapidando os sons. Até entrar em estúdio com o som já finalizado, seja a mix ou a produção. Quando entro no estúdio eu já sei como a música tem que ficar.”

[Hits Perdidos] Para finalizar, quais bandas do Brasil nos dias de hoje acredita que estão merecendo mais atenção dos leitores do Hits Perdidos?

Denis Cardoso: “Existem bandas bem legais do cenário alternativo, acredito que duas das melhores bandas que já tive o prazer de ouvir e tocar junto são: TopsyTurvy (Mogi das Cruzes – SP) e Doctor Mars (Indaiatuba – SP). Ambas com muita energia ao vivo, cada uma com seu estilo.”

Para você que tem banda ou ainda rabisca o começo da carreira, histórias como a de Denis tem tudo para ser super inspiradoras. Afinal de contas poucos tem a coragem de depois dos 30 se jogar no sonho rock’n’roll. Mas não fazer isso de qualquer maneira, estudar, refletir, pensar de maneira estratégica e fazer.

O que mais vejo nesse mundo são sonhos sufocados de almas que abdicam de viver. Talvez você não ouse fazer da forma que ele fez, mas as vezes você pode fazer a sua maneira. Afinal de contas, não existe ciência perfeita para encontrar a verdadeira felicidade. E buscar a plenitude pode ser o melhor caminho para isso.

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