Rádio Brasil 2000: O fim de uma era e um pouco mais de rock

Talvez essa seja uma das matérias mais difíceis de escrever nesta breve história do Hits Perdidos. Pelo teor emocional que é carregado, por todos os envolvidos e pelo carinho que tenho pela rádio.

Afinal de contas: quando as coisas são feitas com amor, logo se percebe. Se solidarizar e agradecer eu ainda acho que é pouco, mas todo reconhecimento sempre deve ser manifestado. Seja com as pessoas ou com as instituições que temos afeto. É um fim de uma era, sim, pois a vida tem que seguir em frente meu amigo.

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Osmar Santos Jr. e Anna Helena Rainere durante a apresentação do histórico último Via Web. O programa foi ao ar na terça-feira (19).

A Brasil 2000 sempre apoiou a cena musical independente desde seu dia 1. Naquele 12 de dezembro de 1985 – sim, no ano da primeira edição do Rock In Rio – na frequência 107.3 MHz da FM entrava no ar a rádio que ia fazer história.

O Rock alternativo, o soul, o ska e até o hip hop já ganhavam espaço na programação. Esta que sempre foi bastante diversificava, alegre, carismática, autêntica e longe das trevas da máfia do jabá.

Já em 1989 ela começou a operar em esquema similar as college radios americanas, as famosas rádios universitárias. Algo que foi possível graças a Roberto Maia. Bom, nem precisamos citar o extenso currículo dele, afinal de contas ele é um dos grandes responsáveis pelo renascimento da Rádio Rock (89FM) no formato que conhecemos hoje.

Roberto dirigiu a rádio entre 1989 e 2001 e como Osmar cita na entrevista foi um de seus grandes mestres dentro do universo das rádios. Diversos programas como Caminhos do Rock, Lançamento Nosso de Cada Dia, 2000 Volts, Noites Futuristas foram criados durante esse período e como consequência o veículo foi premiado com dois prêmios APCA.

A partir de 2006 a rádio começou a ser jogada para escanteio gradativamente. Nesse ano passou a se chamar: FM 107.3 e retransmitir a programação da rádio bandeirantes por cerca de 6 meses. Em 2009, passou a ser afiliada da Rede Eldorado e começou a transmitir jogos de futebol.

Apesar de conseguir manter parte de sua programação, o fim parecia inevitável (ao menos na FM). No dia 25/02/2011, a Fundação Brasil 2000 e o Grupo Estado comunicaram:

A Rádio 107.3 FM passará a transmitir conteúdos de programação fornecidos pela Rádio Eldorado FM“, sob o nome de Rádio Eldorado Brasil 3000.

O que adiou o fim naquela frequência em um mês. O adeus a FM aconteceu no dia 27 de março daquele ano. Sua programação foi integramente substituída pela programação da Rádio Eldorado FM.

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Depois do apelo dos fãs: Osmar Santos Jr. foi o grande responsável pela volta da Rádio em um novo formato (2011).

Em 2011 mediante apelo dos fãs e a força de querer continuar: sob as mãos de Osmar a rádio mudou seu formato. Das FM’s da college radio para a Web. Sim, a Brasil 2000 re-estruturada passou a operar como uma Web Radio.

Ou seja, de 2011 para cá bastava acessar o site (criado inclusive pelo próprio Osmar – e depois aperfeiçoado por um designer de confiança) ou o aplicativo para Smartphone para se aventurar através das frequências insanas do melhor do rock’n’roll. Neste período, a rádio contou com apresentadores como Osmar Santos Jr., Kid Vinil, Anna Helena Rainere, Débora Cassolatto (aka Debbie Hel), Jai Mahal, China Kane entre outros.

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É com essa alegria e espontaneidade que a Brasil 2000 deve ser lembrada. Acredite nada disso era forçado, você chegava lá e era recebido de braços abertos. A rádio recebeu centenas de bandas, fãs e personalidades para participar de seus programas.

A sinergia vinha muito dessa troca de ideias, sons e até na forma de desabafos. O Via Web por exemplo era a conversa diária entre o Osmar e a Anna durante um som ou outro. Muitas vezes acompanhados de bandas que iam conversar sobre seus lançamentos e experiências de vida.

A troca era essêncial para que tudo rolasse da melhor forma. Como a Anna até cita durante nossas conversas: “No começo brigava e levava desaforo de ouvinte seguido de críticas…depois virou meio que uma família…a família Brasil 2000.”

Tão família que eu me lembro muito bem quando falei para a Anna: “Meu você precisa conhecer minha amiga (a Debbie Hell), você vai pirar na paixão desenfreada dela por música.”

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Anna Helena e Debbie Hell entre um intervalo e outro do Debbie Records.

Eu mal imaginava que dali sairia uma amizade, muito menos que isso ia se tornar parte da história da rádio. Depois da conexão instantânea, foi questão de tempo para que o Debbie Records entrasse na programação.

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Nada mais justo do que dar espaço para ela contar um pouco sobre a experiência e seu sentimento em relação as pessoas e a rádio. Com a palavra: Debbie Hell.

Don’t ever rest, Brasil 2000!

“Cara, eu sempre amei a Brasil porque foi lá que descobri bandas incríveis quando a internet ainda engatinhava. Lembro de aumentar o volume do som do carro quando ouvia pela primeira vez inúmeras bandas, hoje imensas (White Stripes, Jet, Arctic Monkeys), tocadas ousadamente por lá, com ares de “aposta” e “descoberta do Myspace” na época do dial. Amava a subversão, o desaforo e a liberdade do Programa Garagem. Aquilo sempre foi uma inspiração imensa pra mim.

Já na web, sinceramente não tenho nem como descrever o que foi esse um ano de Debbie Records por lá, junto com os ao vivos esporádicos no Via Web, as Live Sessions com bandas, os programas especiais Sónar e SIM SP… Não precisava de metade disso para essa ter sido uma das melhores e mais enriquecedoras. Experiências da minha vida.

Estar lá, sentada, na frente de um microfone, falando sobre música, com um programa em que eu tinha total liberdade criativa, e poderia colocar quantas bandas independentes nacionais que quisesse (e até criamos uma comunidade em torno disso), gravar nos ~históricos estúdios da Brasil 2000~, a chance de ter um espaço para mostrar meu trampo (sonhado nesse formato quando eu era adolescente), o contato com ouvintes que acabaram se tornando uns queridos, a confiança depositada em mim, ser acolhida e trabalhar direto com a lenda viva ambulante que é o Osmar -esse tonel de histórias, sabedoria e piadas infames- é uma sensação de gratidão e privilégio imensurável até mesmo para um parágrafo imenso desses.

E temos a Anna. Uma garota que está só começando e já tem tanta experiência, conhecimento, visão crítica, e coragem admirável, foi uma companheira fundamental não só nos trampos, mas uma amiga, de identificação imediata, dessas que a gente leva pra vida. 

É uma pena que a Brasil com tanta história, e -sinceramente- com uma programação feita com tanto cuidado, carinho, pesquisa, seriedade, paixão e -principalmente- desafiando o lugar comum, feche suas portas depois de 30 anos.

Mas tudo que carrego na mochila depois dessa é gratidão, respeito, uma bagagem profissional numa área que eu não entendia um caralho misturada com memórias hilárias, com um patch imenso de .::obrigata:::. Trabalhar com música com gente que REALMENTE se importa com ela é coisa de outro nível.
Agora chega senão eu vou chorar.”

E é com essa paixão que você sente que vale a pena se meter em confusões em nome da música. Uma arte que acima de tudo envolve muita paixão e coração. Todos nós temos a plena convicção o quanto é dura a vida de ser independente. Loucos os que tem bandas, pirados os que atrevem a ter selos. Roucos os que tentam narrar essa história.
E a Brasil foi meio que isso, esse elo entre o tão urgente e sofrido underground aos apreciadores da música muitas vezes não comercial. Da música de verdade, feita com a alma, cheia de paixão e a vontade de criar um cenário musical paralelo. Fortalecer o underground e quem sabe descobrir o próximo hit perdido.
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Yuri Hermuche (Escritor / Firefriend), Debbie Hell, Anna Helena e Zé Algodoal (Pin Ups)

O dia em que estive nos lendários estúdios da Brasil 2000

Nada como visitar aquele local onde você apenas tem uma visão em seu imaginário. Seria lá uma casa enorme? Um porão? Um navio de rádio pirata? Um mega prédio com 500 empresas? Como seria os estúdios? Será que é como imagino? Qual ambiente?

Essas eram algumas dúvidas que eu tinha antes de visitar a Brasil 2000. Mal sabia onde era mas no imaginativo, era algo rock’n’roll e D.I.Y. Antes de enfim visitar eu já tinha simpatia. A casa onde a rádio é abrigada fica nas imediações da pompéia (R. Pedro Soares de Almeida, 74 – próxima a Av. Heitor Penteado). Super acolhedora e de cara já senti uma boa energia no ar.

Chegando lá fui recebido muito bem. Rolou até um lanchinho que a Anna foi arranjar, sanduíches de metro, refris, tudo porque era dia do lançamento do livro Rcknrll do Yuri Hermuche.

Em certo momento subimos para os lendários estúdios da Brasil 2000. E gente, eu pirei. Ver as mesas, ver o estúdio, os detalhes e tudo mais. Tudo isso orientado pela Anna que me explicou direitinho. Quando o programa foi no ar o show começou.

Osmar logo de cara mostrou a lenda que é e comandou com maestria o programa. Super descontraído ele fez uma série de piadas no ar e nos intervalos. O tema lógico não poderia ser outro além de rock’n’roll. Durante os intervalos Anna prontamente separava os comentários das redes sociais dos ouvintes para citar ou questionar os entrevistados.

Eles estavam recebendo aquele dia: Yuri Hermuche (Escritor / Firefriend) e Zé Algodoal (Pin Ups), porém amontoados e super respeitosos no estúdio estavam ouvintes fiéis como Junio Mendonça, e outros artistas como Alexandre (Aletrix), Giuliano Di Martino (Deb And The Mentals) e Dom Orione (Videocassetes).

O tema do dia era o lançamento do livro mas o tom da conversa foi bem mais para o lado das vivência do mundo do rock. Principalmente das bandas da geração do Pin Ups, onde o inglês e as guitarradas ganharam mais força do que nunca, como o Guitar Days ainda vai nos contar em breve.

Zé é uma tremenda figura folclórica e contou várias confusões e desavenças com seus antigos companheiros de banda. Histórias incríveis de lugares onde ele só conseguiu conhecer por ter um conjunto.

Yuri também pontuou um monte de dados que conseguiu durante suas entrevistas para escrever o livro e falou de sua mini turnê pelo país para divulgar o trabalho. O que ficou marcado na minha cabeça foi: Tenha uma banda, comece amanhã.

Bom isso eu ainda não fui atrás mas quem sabe. Depois disso rolou o maior bate-papo pós programa e me alonguei nos estúdios admirando o local e conversando com os que restaram. Numa dessas o Alê me entregou um disco do Aletrix (Herpes Aos Hipsters). E bom, virou uma resenha por aqui.

Voltei para a casa naquele dia com um sorriso de orelha a orelha. Tendo conhecido pessoas incríveis, respirado aquele ar e com um livro debaixo do braço. Uma camiseta da rádio, que guardei com carinho em casa. Quem sabe algum dia ainda não a enquadro.

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No centro: Alê Lima (Aletrix). No fundo: Anna Helena (sentada) Rafael C. (Hits Perdidos), Debbie Hell e Giuliano Di Martino (Deb And The Metals)

Não foi por acaso que no último programa ao vivo (Via Web) do dia 19.04 após o anúncio sobre o fim da Web Radio eu me atirei a escrever um textão todo emocionado de agradecimento a eles.

“Apenas que vocês merecem os mais sinceros aplausos. Um parabéns seria pouco. Estes anos de serviço ao rebelde rock’n’roll e toda sua influência a cultura jovem (que envelheceu junto, rs).

Num formato muito legal, com pessoas de verdade que sempre deram todo o coração para que a parada rolasse da melhor maneira. Hoje o dial (mesmo da Web) fica num silêncio sem fim. Mas um silêncio respeituoso entre uma distorção pesada e um acorde solto. Não tenho palavras para agradecer, tanta gente que movimentou, tanto quanto ajudou a formentar e renovar a cena musical de nosso país.

Muito legal ter tido a oportunidade de ver a engrenagem funcionando e ver todo esse amor. Sorte nos futuros planos, que pessoal receba e continue dando a voz a vocês no último volume. Rock’n’Roll e fúria sempre ligados nos 220V.” Rafael Chioccarello (19.04.2016 via página de Facebook)

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Para minha surpresa e calafrio na espinha: eles leram ao vivo. Eu quase chorei, foi o momento em que caiu a ficha que aquilo era mesmo o fim.

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O ouvinte Lafaiete Nascimento chegou inclusive a apresentar um programa com a dupla dinâmica.
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Lafaiete Nascimento, Anna e Debbie Hell.
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Alê Lima (Aletrix) e o ouvinte Junio Mendonça

E foi nessa proximidade com o ouvinte que a rádio de fato se tornou uma grande família. Ficar parado ou deixar isso se perder não é algo nos planos deles. Osmar inclusive nos últimos tempos começou a agitar a internet com seu novo projeto: Um Pouco Mais de Rock.

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O projeto é do Osmar mas olha o que vem por aí também. Acho que podemos ficar animados para a nova empreitada de nossa dupla dinâmica.

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Assim como o rock, a vida é cíclica e as vezes devemos deixar velhos hábitos para trás para se jogar em novas aventuras e desafios. Um Pouco Mais de Rock com certeza vai continuar trilhando os caminhos e ajudando o independente a respirar.

Afinal de contas assim como a MTV Brasil, foram revelados diversos talentos que foram lapidados dia após dia. Take após take. Programa após programa. Confusão atrás de confusão.
No fim de abril a rádio saiu do ar. Muita coisa mudará, mas a esperança e o rock’n’roll com certeza estarão nos planos de nossos amigos. O veneno e a fúria deles está já instalado debaixo da epiderme. É algo maior do que apenas um chiado ou distorção equalizando numa caixa. Faz parte de quem eles são e da vida deles.
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Deb And The Mentals durante as gravações nos lendários estúdios da Brasil 2000.
Bom agora com a palavra: Anna Helena Rainere.

 [Hits Perdidos] Quanto tempo você ficou na rádio e o que a Brasil 2000 representou na sua vida?
Anna: “Trabalhei por exatamente 3 anos na Brasil 2000 e minha experiência lá foi como uma paixão a primeira vista, pois pela primeira vez na vida pude conviver com gente que tem pensamentos relativamente parecidos com os meus. Foi como se eu descobrisse a cena independente pela primeira vez e a sintonia foi perfeita. Eu digo isso pelas bandas que sempre gostei e comecei a ver um sentido nisso, as bandas brasileiras que eu sempre gostei, tem total a ver com as bandas gringas que eu ouço… Então perceber isso foi lindo!”
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O dia-a-dia de Osmar Santos Jr e Anna Helena Rainere era mais ou menos assim. Quando Beatles era assunto nos corredores.

[Hits Perdidos] Nos últimos tempos você apresentou um dos programas mais legais e super quebra de preconceitos falando de uma banda que você não gosta: Os Beatles. Conte como foi esse desafio e seu saldo.

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Osmar é beatlemaníaco já Anna não suporta.

Anna: “Sinceramente, foi um dos maiores alívios da minha vida! Ouvir a discografia dos Beatles só foi pra me dar certeza que o som deles não faz sentido algum com o que eu acabei de falar na outra pergunta.

Obviamente o quarteto deve ter influenciado bandas que eu curto, mas na minha cabeça não tem a ver e poder ter certeza disso, só me deixou ainda mais feliz de saber que eu não tava fazendo “errado” hahahaha (em falar que não gosto deles). Pra falar que não gostei de nenhuma, “Sun King” é uma música bem legal, do Abbey Road.”

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[Hits Perdidos] Quais os melhores momentos da rádio e o que ela te proporcionou que talvez em nenhum outro lugar teria o prazer de fazer?

Anna: “A Brasil 2000 sempre me proporcionou fortes e intensos sentimentos, desde pessoas falando mal de mim, quanto poder ver apresentações ao vivo na rádio juntando todos ouvintes. Então pra mim, o melhor momento foi quando fizemos uma festa pra banda mega underrated Drugstore, liderada pela Isabel Monteiro. Esse dia foi muito especial pra mim, pois levamos uns ouvintes e todo mundo estava na mesma vibe, todo mundo super curtindo o som.. Foi maravilhoso e inesquecível.”

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Anna, Isabel Monteiro (da banda Drugstore) e Debbie Hell.

[Hits Perdidos] Você é completamente obcecada por rock feito por mulheres, mega militante feminista e super articulada com as causas socias. Como vê o momento atual do país e que músicas expressão melhor seu sentimento no momento?

Anna: “Isso é verdade, as vezes me pego pensando e chego a ser radical mesmo… Atualmente meus pensamentos são voltados para o feminismo toda hora! O nosso país tá num total regresso, seja em qualquer causa.. Mas pra nós mulheres, está pior.

Tem projeto de lei pra acabar com a pílula do dia seguinte, ok, mas ao mesmo tempo o aborto é ilegal. Cadê nosso direito? E nem vou comentar aqui sobre o corpo da mulher brasileira né? Conhecido mundialmente…

Enfim, eu ando bem revoltada mesmo, mas com fortes esperanças de que tudo isso é temporário, quando nós brasileiros passarmos por essa turbulência, vamos sentir o erro que foi esse regresso. Mas vamos falar de música, pra mim Bikini Kill continua super atual pro padrão Brasil, vira e mexe fico comparando a música delas com a nossa situação e isso é triste! Acho que a música “White Boy” descreve muita coisa e “Feels Blind” também!”

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Via Web com a presença do Selvagens A Procura de Lei.

[Hits Perdidos] Qual Via Web foi o mais divertido de apresentar?

Anna: “Nossa foram muuuitos via web, de quinta-feira costumávamos a chamar convidados e entrevistá-los. Um dos mais legais foi quando o Adriano Cintra foi, eu achei total nostálgico, afinal fui fundadora do Fan Clube do Cansei de Ser Sexy. Gostei também quando a banda Moxine foi, dei muita risada!”

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Bandas tinham a oportunidade de mandar o som ao vivo e sem cortes.

[Hits Perdidos] Do que sentirá mais saudade?

Anna: “Com certeza das minhas conversas diárias com o Osmar! (risos)”

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Anna e a banda The Shivas

[Hits Perdidos] Você é apaixonada também por cinema. Se fosse dirigir um filme, quais bandas com certeza não ficariam fora da trilha?

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Anna e Peter Hook (Joy Division)

Anna: “Pergunta mega dificil! Pela paixão, eu colocaria Sleater-Kinney. Mas sempre achei Velvet Underground com cara de trilha de filme!”



[Hits Perdidos] A relação com os ouvintes como você relata sempre foi muito próxima, a Família Brasil 2000. Fale um pouco sobre eles, sua importância e se alguns de fato se tornaram.


Anna:  “A minha relação com os ouvintes não começou bem. Logo no início, tive uma rejeição – por alguns dos ouvintes mais fiéis – e parecia que nunca iríamos nos dar bem. Talvez eu tenha parecido meio intolerante, em relação a algumas bandas, mas depois eu sinto que veio um amadurecimento e procurei saber mais sobre aquilo que me incomodava.

Como disse anteriormente sobre a session do Drugstore, tudo mudou!
Senti o começo de um laço que se perpetua até hoje. Trocamos informações sobre música e sempre ouve um suporte de todos em relação a tudo que a Brasil proporcionava…

E nisso, veio a minha eterna gratidão a todos eles! Luka Mendes, Reginaldo LucasCarlos Murata, Juliana Freitas, Fernando da Sílvia Oliveira, Leandro Binachi Mendes, Fabers Bush, Ageu Silva, Marcelo Porto, Helio Priester, Andrei Cardoso – que fez até tatuagem do logo da Brasil – Jane Araújo, Rodrigo Monari, Bia Nevese tantos outros que eu considero amigos e são pessoas que eu adoro falar sobre música e fazem a diferença no meu feed de notícias

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Osmar Santos Jr. a lenda por trás dos microfones da Brasil 2000.

[Hits Perdidos] Como foi o início da rádio? E qual momento para você foi o auge?

Osmar: “A rádio começou a transmitir em fase experimental no final de 1985. Era um projeto da Anhembi-Morumbi em parceira com a Faculdade Ibero-Americana. No começo tinha uma programação bem mais adulta, com programas de jazz, blues e música instrumental.

Quando Roberto Maia assumiu a direção, ainda nos anos 80, ele trouxe e adaptou o conceito das college radios americanas e deu super certo. A partir dai a rádio sempre esteve presente na cena cultural e musical, não só de São Paulo, mas do Brasil todo.

Com os erros e acertos a equipe foi se solidificando e na metade dos anos 90, quando o Tatola passou a fazer parte da equipe, conseguimos muito mais espaço no mercado. Acho que ai foi o grande momento.”

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A banda Troublemaker quebrou tudo nos estúdios da Brasil 2000.

[Hits Perdidos] A história de mais de 30 anos da Rádio em serviço do Rock chega ao fim. Conte como soube da notícia.

Osmar:É difícil dizer que chega ao fim. O que você ouve na rádio é o meu dia a dia. Ouço música o tempo todo e vou continuar fazendo isso e dividindo com as pessoas. Tenho meu home estúdio e, muitas vezes, transmito a Brasil 2000 de casa. Só preciso arrumar um estúdio para continuar fazendo as sessions. A rádio teve várias fases e todas tiveram um fim. Eu estive presente em todas elas, sempre tentando fazer o meu trabalho com as bandas nacionais, independente de quem estivesse na direção e acho que consegui manter isso durante todo esse tempo.

Bem antes da parceria com a Eldorado (fevereiro/2011) já não existia mais uma equipe, então já tinha terminado. Fiz uma proposta para o grupo de manter a rádio na internet para, principalmente, continuar trabalhando com as bandas novas e eles aceitaram.

Quando comecei a colocar apresentações do meu acervo pessoal no site e dizer que eram gravações feitas nos “lendários estúdios da Brasil 2000” as bandas voltaram a ter interesse em tocar no Brasil 2000 Ao Vivo, isso foi legal.

O grupo GAMARO, responsável pela rádio, hoje é uma incorporadora com foco no segmento residencial, é outra coisa. Então é isso, a notícia já estava anunciada há tempos.”

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Uma das características que Osmar manteve ao longo do tempo foi o seu bom humor e receptividade.
[Hits Perdidos] Quando soube, não parei de ver aquele filme do fim da MTV Brasil correr na minha cabeça em 45 rotações por minuto. Quais paralelos consegue fazer entre o triste fim de ambas e como vê o mercado fonográfico em 2016?

Osmar: “Daí teríamos que levar em conta o fim da Brasil como rádio (dial) e não como web radio, que é um coisa muito pequena.

Claro que é ruim quando um veículo, que abre espaços para novos artistas, chega ao fim ou migra para a internet. O FM e a TV ainda são canais muito fortes. A internet é genial, sabendo usar a ferramenta certa você consegue uma boa exposição, mas depende sempre de boa conexão e vários outros fatores que a tornam menos prática do que apertar um botão e ouvir o rádio no carro, por exemplo.

Quanto ao mercado posso garantir que existem bandas maravilhosas por todo o país, mas sempre enfrentando os mesmos problemas – que rádio vai tocar minha música e onde posso fazer um bom show e receber por isso. Apesar de todo rock and roll o Brasil é popular e as rádios não fogem muito desse perfil, comercialmente é inviável.

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Autoramas e a crew da Rádio Brasil 2000
[Hits Perdidos] Não duvido que na memória, nas fitinhas K7 do acervo e nas mais variadas fotos registradas ao longo dos anos temos muitas histórias felizes e divertidas. Fale sobre algumas que jamais esquecerá, sendo legais, surpreendentes ou até mesmo decepcionantes.

Osmar:Sempre foi divertido. Trabalhei com pessoas incríveis, conheci artistas de quem eu era fã, fui a centenas de shows e isso tudo é surpreendente, não é?
Não tenho nenhuma mágoa. Pessoas erram e eu também, nunca me decepcionei. Sempre foi um sonho bom.

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Anna, Fabrício (Garage Fuzz) e Osmar.

[Hits Perdidos] Que recado daria para uma banda que pensa em começar a tocar o tal do rocknroll?

Osmar: “Faça rock and roll, básico, autêntico. Não tente se enquadrar a um estilo só pra tocar no rádio. Não existe música pra tocar no rádio. Existe música boa. Se for boa e se tiver espaço vai tocar alguém, independente do veículo.”
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Branco Mello (Titãs), tomando um sol, fumando um cigarro e posando para a foto em frente a rádio.

[Hits Perdidos] Você no dia que eu estive presente nos lendários estúdios da Brasil 2000 confessou que era um “metaleiro” de carteirinha. Que aprendeu muito depois que foi trabalhar na rádio a lidar com tanta diversidade de estilos. Como foi esse choque e o que leva de aprendizado dessas verdadeiras “ciladas”?

Osmar:Não foram ciladas, foi um curso superior completo. Quando entrei na Brasil tinha 17 anos, ouvia Heavy Metal e tinha uma banda de garagem. Comecei como discotecário e logo fui trabalhar como sonoplasta no estúdio.
Nessa época tínhamos grandes produtores e a cada dia eu gravava e montava um programa (blues, jazz, MPB, música latina, música francesa, entrevistas, etc) diferente. Simplesmente absorvi tudo isso. Kid Vinil, Roberto Maia e tanta gente boa foram meus professores, de verdade.”

Valendo camiseta de Brasil pelo seu comentário!!!!!

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[Hits Perdidos] Com o fim da rádio você tem planos em migrar para um site, de maneira que tua voz não perca a força. Como fará isso? Pretende fazer podcasts? Pensa em tentar a vida de youtuber cultural? Como vê o advento das tecnologias digitais no universo da música?

Osmar: Como eu disse, não consigo pensar nisso como fim. É minha vida, então só vai acabar quando eu parar. Estou com o site (www.umpoucomaisderock.com). Aos poucos pretendo disponibilizar o meu acervo e criar novos podcasts.

Quero continuar entrevistando bandas e vou arrumar um estúdio para fazer as sessions ao vivo. Sempre gostei disso e não dá mais pra mudar. Claro que não dá pra fazer tudo sozinho, mas não sou uma empresa e vou precisar da “little help” dos amigos, sempre.”

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Lançamento do livro Rcknrll de Yuri Hermuche. Os ouvintes puderam ir e comprar seu exemplar sobre essa aula de rock.

[Hits Perdidos] Quais shows que você teve a oportunidade de ver mais te marcaram?

Osmar: “Vi centenas de shows. As vezes preciso que me lembrem se estive lá ou não. É difícil dizer, o primeiro show que assisti foi o do Kiss no Morumbi, em 1983. Esse tá gravado na memória.

Assisti a um show do Scorpions no palco, vi Joan Jett com Joey Ramone em Nova Iorque, não entendi o Nirvana quando tocaram no Brasil e vi muita banda brasileira legal. Cara, eu me diverti pra caralho!”

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O fim de um ciclo é apenas o começo de outro. Anna e Osmar se divertindo durante as gravações.
[Hits Perdidos] Como acha que vai ser daqui para frente depois de 30 anos acostumado com uma rotina de ir ser warlord do rock? O que acha que vai mudar, quais outros planos que sempre quis tocar mas não teve a oportunidade?

Osmar: “Nesses trinta anos tive a sorte de ser pago para fazer algo divertido. Como todo mundo preciso pagar as contas. Então vou procurar alguma coisa na minha área e torcer pra que continue sendo sempre assim, divertido.”

E é isso pessoal, essa foi a maneira que encontrei de fazer uma digna homenagem a estes profissionais cheios de talento e bagagem. E que venha um pouco mais de rock para nos dar um pouco mais de alegria, diversão e nos transporte para outra atmosfera.

Não tenho dúvidas que o mercado vai abraçá-los e que esses novos planos vão ser um sucesso. Afinal de contas o sucesso é apenas consequência de um trabalho duro, suado e honesto. Viva o rock! Viva as bandas independentes! Viva o D.I.Y!
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17 thoughts on “Rádio Brasil 2000: O fim de uma era e um pouco mais de rock

  1. Eu Silvana Castro trabalhei como produtora e programadora musical de 86 a 91 na Brasil 2000 FM e participei da transição da rádio quando ela passou a ser uma rádio rock por excelência na programação, porque até então ela tocava MPB, música internacional e fazia programas de samba com Gleides Xavier e Alex Ribeiro, de Jazz com Priscilla Pfromm (produtora) e Wilson Versolato, programa de Blues. O produtor Henrique Bonvino decidiu fazer um programa chamado Sombras Sonoras onde abordássemos tudo sobre terror (rock, filmes, livros, exposições) a partir daí 1986 a rádio começou a tocar rock. Programas de esportes com Eduardo Affonso (Rádio Band e hoje ESPN Brasil), nas madrugadas o repórter Luciano Jr (TV Bandeirantes e hoje Rede TV!) fazia matérias sobre as baladas mais agitadas, sobre o corpo de bombeiros ou sobre pessoas que trabalhavam na noite paulistana. E ainda tínhamos a alegria e o astral do Jai Mahal e China Kane que estreou em 1988 com o Reggae Raiz!!! O locutor Rubens Vianna apresentou e produziu vários programas da
    rádio e foi um grande companheiro do Osmar. Tínhamos programa de cinema com Celso Sabadin, sons novos e criativos com Kid Vinil e Sonia Abrão com o “Quarto Mundo”, programa Revolution com Marco Antonio Malagoli sobre Beatles, música latina com Franklin Valverde.
    Produzi programas memoráveis como o “Brasil 2000 Especial” (1989) que mostrava a biografia das bandas clássicas como Pink Floyd, Led, Purple, Lynyrd Skynyrd, Allman Brothers. Genesis, etc e era apresentado pelo saudoso e roqueiro Jota Erre e ainda fizemos juntos “A Carava do Delírio” (1990) onde entrevistamos Sergio Groisman, Giulia Gam, Carla Camurati, Tadeu Jungle, Skowa e a Máfia, Língua de Trapo, Angeli, Alvaro Pereira (editor do Jornal Notícias Populares), Andre Forastieri (revista Bizz), Titãs, Max e Igor Cavalera, Arnaldo Baptista (Mutantes), Barão Vermelho, Marcelo Rubens Paiva, Kid Vinil, Made in Brazil, Blues Etílicos, Lucélia Santos, André Christovam, Golpe de Estado, Kiko Zambianchi, Ira!, Luiz Carlini (guita Tutti Frutti), Astrid Fontenelle, Ultraje à Rigor, Inocentes, Jorge Mautner, Marcelo Nova (Camisa de Vênus), o batera Duda Neves, bandas Gueto e Lagoa 66, Paulo Lima (Revista Trip), o saudoso e guitar hero Wander Taffo etc… E finalmente tínhamos um programa chamado Clip Independente produzido e apresentado por Osmar (Osmi) Santos Jr com as bandas novas e estamos falando de 1986 onde o Osmi já dava uma big força pros novos sons e pros novos músicos. Essa é a história da Jurássica Rádio Brasil 2000 FM que deixou de existir mas que fez história no dial e na web!!!

    1. Que história maravilhosa! Essa rádio fez muita gente feliz. Gratidão eterna a cada programa que ouvi e que aprendi um pouco mais sobre música. Tudo sempre com o maior alto astral. Vai fazer falta, assim como a FM fez. Obrigado por compartilhar sua história.

  2. Parabéns Rafael vc fez todas as perguntas que eu faria, e triste perder essa referência de vida, a voz inconfundível do Osmar Jr não deve calar e tão pouco seu gosto musical refinadissimo e as novidades que sempre viram sucesso apresentados por ele, valeu

  3. Com o tempo eu descobri o que era meu gosto musical. Pra explicar como eu cheguei a Brasil2000 é meio estranho. Mas, no tempo que eu comecei a ouvir rock, em meados de 2002, minhas referencias eram a Radio Mix e 89FM. Com o tempo essas Rádios mudaram muito e até pararam de tocar Rock. E havia encontrado a KissFM, mas notei que meu gosto por Metal não era tão preferido.
    Quando encontrei a Brasil 2000 Me identificada com as músicas diferentes. Elas eram da forma que eu sabia tocar a época. Os As bandas tinham características únicas, e tocava muito som brazuca.
    O que me intrigava era que eu nunca sabia o nome das bandas. (porém até hoje sinto a nostalgia da Brasil 2000, quando ouço uma música e descubro finalmente o nome da banda com aplicativo de rastrear artista hahaha (Tenho uma lista no Spotfy que se chama Sons da Brasil2000). Foram praticamente 10 anos ouvindo sempre no radio fm, do DiscMan, MP3 Player, Radio gravador, e Smartphone.
    Finalmente entendi que gostava de Bandas independentes. Passei a ouvir mais e frequentar mais shows, vincular a shows pelas casas em SP, Eventos culturais e tudo mais.
    Não tem como não admitir que tive total linfluência no meu gosto musical, que até hoje é muito questionado pelos meus amigos como estranho. Porém, antes mesmo de uma banda ficar mainstream, eu já conhecia todos os seus HITS (álbum todo) e sei de história de quase todas hahaha.
    Parabéns, Brasil2000. A rádio não acabou. Ela disseminou cultura. Essa cultura se manterá pra sempre em quem foi influenciado!

    1. Que relato incrível. Realmente ela ajudou muita gente a conhecer muita música e ajustar o gosto musical. Ela não acabou, ela transcendeu!

  4. Eu escutei a Brasil 2000 desde os anos 90. Os programas do Tatola e do Maia, o Backstage do Vitão Bonesso, A Hora do Dinossauro do Sergio Avelar, Garagem com o Barcinski e cia… enfim, tenho algumas fitas cassete gravadas daquela época incrível. Ganhei ingressos, camisetas, participei ligando ao vivo algumas vezes… Tudo isso ficará na minha memória com muito respeito por essa emissora e o trabalho do incansável Osmar. Senti a falta da emissora na FM, mas imediatamente comecei a ouvir na web. Há dois anos, mudei justamente para a rua da Brasil 2000 e da minha janela dava pra ver as bandas chegando na terça-feira à noite para tocar ao vivo. Sempre mandei mensagens pedindo para visitar a rádio, mas nunca tive resposta, uma pena. Depois que soube do fim definitivo, dói no coração passar em frente ao prédio todos os dias e saber que não teremos mais nada ali. Mesmo assim, seguirei acompanhando o trabalho do Osmar e desejo boa sorte e muito sucesso!

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