Bem-vindo ao mundo pervertido e inescrupuloso do Porno Massacre

Hoje vocês vão conhecer a trilha sonora ideal para quem se amarra em Spaghetti Western.

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Ou uma das facetas do circo western pornô do Porno Massacre. Em meio a muito bang bang, sadomasoquismo, purpurina, luchadores mexicanos, aulas de como ser um surfista calhorda, dançarinos da escola broadway, jazz nova iorquino e uma generosa porção de canastrice: Esse é o menu do dia, servidos?

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Particularmente, conheci o projeto paralelo deles creio que  em 2012. Eles tocaram provavelmente em alguma festa na Augusta (que tenho poucas memórias, me desculpem) ao lado da banda We Are The Clash (Cover de The Clash).

Agora explico, o Porno Massacre teve início em 2008, com a intenção desde cedo de fazer som autoral. Porém em seu embrião, eles começaram com o projeto paralelo, o cover de Sex Pistols. Mas como vinha dizendo, tenho lapsos daquela noite em que vi eles pela primeira vez ao vivo, mas lembro de ter sido mega animado e de ter sentido uma vibe meio: “Porra, porque esses caras tão fazendo cover? Eles podem fazer mais do que isso.”

Mal eu sabia que naquele ano eles lançariam seu primeiro EP, Harbingers Of Apocalypse (Setembro/2012) – que o nome me remete ao Apocalypse Dudes (do Turbonegro) by the way.

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Porno Massacre em ação no Future Basement (2015) Foto Por: Fe Gamarano

Mas agora vamos devidamente apresentá-los. O Porno Massacre é um quarteto paulistano formado em 2008 que faz a mistura de Punk, British Rock e Jazz. Mas deixemos eles explicarem um pouco o som, já que a definição deles é ótima:

“Some o som do The Cramps aos Beach Boys porém com o peso do AC/DC (Nashville Pussy, Motorhead, The Cramps, New York Dolls, The Hives, Alice Cooper, Sparks) e a canastrice elegante de Serge Gainsbourg. Adicione a transgressão de Iggy Pop e New York Dolls e pronto! Essa é uma aproximação tosca do que pode ser a Porno-Massacre.”

Mas claro que você agora se pergunta mas porque desse pervertido-ácido-sagaz-macarrônico nome:

“O nome, extraído da paixão dos integrantes pelas produções independentes de baixíssimo orçamento do cinema alternativo, reflete sua predileção por terrenos pouco explorados, porém muito ricos, dos aspectos obscuros da humanidade. Dentro de toda a sua amplitude, e devido às suas mais variadas nuances, a nossa existência é retratada com toda a sua angústia e insensatez de forma corajosa, engajada, sublime, e sobretudo, autêntica.”

Mas quem são os caras?

Aqui que tudo começa a fazer sentido (ou só confunde mais), cada membro do grupo é também um personagem (alter ego) cheio de características próprias feito um super herói. Em tempo D.C. ou Marvel? Polêmicas a parte deixo essa confusão e estapeamento para vocês.

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General Sade, o vocalista do bando. Foto Por: Fernanda Gamarano

General Sade (Roger “Antítese” Martins), tem um visual alá Captain Sensible (vocalista do The Damned) e isso se justifica quando temos o conhecimento que seu visual na verdade é uma grande homenagem ao Marquês de Sade. Oh Bondage Up Yours!
Na banda ele é o responsável pelos vocais, gritos, berros, sussurros (ao pé do ouvido) e percussão.

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Dirty Fingers, é a alma por trás do baixo. Foto Por: Fernanda Gamarano

Dirty Fingers (Paulo Bastos) é quem comanda o baixo, o alter ego se adequa pois ele se afoga em delírios rítmicos e na acidez melódica.

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Ayatollah em ritmo de bang bang comanda as guitarras no circo do Porno Massacre. Foto Por: Fernanda Gamarano

Ayatollah do Rock´n´Roll (Bruno Gozzi), cheio de mística e empunhando a guitarra como um verdadeiro fuzíl militar tem origens de seu alter ego provenientes do filme Mad Max. Let’s go warriors! Aliás, alguém lembra do single Mad Max do Holly Tree?

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Blacknail é o Luchador Mexicano Oficial das lutas de arena no line-up da Porno Massacre. Foto Por: Fernanda Gamarano

Blacknail (Mauro Terra) tem esse nome pela força primitiva dos verdadeiros lutadores de wrestling, com instinto de rei da selva ele desce a pancadaria e não perdoa bumbo nenhum. Segundo ele mesmo o nome de seu alter ego tem origens dos fungos de sua unha do pé. Se vivêssemos nos tempos em que se invocava deuses para que chovesse: Blacknail provavelmente comandaria os batuques.

Devidamente (ou não) apresentados vamos entender qual é a da banda. Mas antes disso, acho bom esclarecer que eles tem o projeto autoral e o cover até hoje. Ou seja, se quiserem contratá-los para tocar Sex Pistols na sua cidade: Apenas façam isso.

Falando nisso em 2015 rolou no MIS (Museu da Imagem e do Som), o III Festival de Bandas Cover e no concurso, a banda conquistou o 2.º Lugar fazendo seu Tributo aos Sex Pistols.

Mas hoje vamos falar do primeiro disco do Porno Massacre: Vol. 1 (2016), lançado no último dia 15/02.

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Mas para isso é necessário entender algumas coisas. O disco foi gravado no Caffeine Sound Studio há dois anos atrás. A produção na época ficou por conta do Luis Tissot (Thee Dirty Rats), por circunstâncias da vida o álbum acabou ficando inacabado (na fase de pré-produção) e foi lançado como uma demo.

Assim ele chegou nas mãos do produtor Vinnie Azevedo (Kinema Music Studio) que deu um tapa no material, finalizando a obra. As nove faixas vieram ao mundo no último dia 15 e eu estava prometendo ouvir o disco tem alguns dias.

 

A primeira faixa do disco é a “Lemarchand’s Box” que abre o disco com riffs alá Agent Orange: aquele surf maroto – sem ukulele – e muita radiotividade. Algo entre Wipers, Dwarves e Fidlar, a música caminha feito uma bomba relógio em que fica difícil saber quando vai explodir. Ao mesmo tempo que ela navega pelas ondas sonoras do melhor do espírito do 77. Feito um verdadeiro pontapé, a música mostra ao que a banda veio.

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Em seguida vem a tenebrosa “Jack”, uma grande homenagem ao Jack, o estripador. Ela narra a saga de um dos maiores serial killers da história do cinema. A canção é um punk rock cheio de elementos de rock’n’ roll, riffs de blues e baixo no talo. Os vocais são bem trabalhados, o que só nos dá uma perspectiva de como ela deve ser teatral e apocalíptica quando executada ao vivo.

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“Igreja Pornomassácrica” tem uma levada que combina as duas fases do The Damned, a punk do primeiro disco (Damned, Damned, Damned – 1977) e a goth/new waver obscura do não tão cultuado Grave Disorder (2001).

E já deixa claro o convite para entrar na igreja pentagonal da anarquia. Onde a ordem é questão de respeitar os princípios da liberdade individual: em que o que importa é a autonomia e a rebeldia do ser. Tudo isso com uma espécie de canto gregoriano embutido no meio do refrão que dá toda uma atmosfera dark e soa ultrajante aos valores de uma sociedade conservadora.

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A glam rocker, “Necrophilia” vem para mostrar o lado mais perverso – e sádico – do universo da arte do sexo com defuntos. Se gostarem de Hanoi Rocks, New York Dolls, e horror punk – e não tiverem muitos preconceitos – vão se lambuzar com o som que tenta contar mais sobre a prática condenada pela maior parte da sociedade. Mas o que eles querem é isso mesmo: subverter os valores e te esfregar isso na cara. Nem que para isso você tenha que estar dando tesão para eles a sete palmos.

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“Pecado Predileto”, entra no mundo pervertido de Marquês de Sade, Nashville Pussy e dos swingin’ utters de Poison Ivy (The Cramps). Mais literal impossível ela detalha as práticas do BDSM com direito a chicotes, velas, botas, correntes, roupas de látex e detalha a perversão que explora as partes erógenas dos corpos. Como se não bastasse isso, ela ainda te convida para um orgia onde vale tudo e ninguém é de ninguém. A música poderia ser um hino de algum clube de swing, visto que tem frases como: quero ser seu escravo sexualsentir prazer e dor.

Na parte sonora a canção é um pub rock garageiro com aparentes influências de grupos como The Mummies, Les Hatepinks e The Cramps. As apresentações com certeza devem ser recheadas de plumas, roupas de látex e bunda de fora. Se não for assim: fica a sugestão, afinal: transgredir os valores é a grande questão. Ir contra o aceitável parece ser uma das preceitas do disco.

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As plumas combinam com a canção Pecado Predileto. Foto Por: Fernanda Gamarano

“5 ‘o Clock” tem uma lavada de Blues mesclada com o rock’n’roll britânico, cheio de lampejos de guitarra e vocal surrado. Ela é toda dramática e cheia de riffs desconcentrantes garageiros alá The Sonics e sua banda filhote: The Hives.

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Dr. Jack Kevorkian, o doutor morte.

Para falar da canção seguinte, “Dr. Kevorkian”, tive que pesquisar suas origens. Quem afinal seria o Dr. Suicídio?

Dr. Jack Kevorkian foi um médico patologista mundialmente reconhecido por sua luta para fazer do suicídio assistido um direito de todos. Ele mesmo inventou uma “máquina do suicídio” e deu apoio a mais de 130 doentes terminais dos Estados Unidos para pôr um fim a suas sofridas vidas através da eutanásia. Por esses motivos ele ganhou o apelido de Doutor Morte. Ele veio a falecer no dia 3 de junho de 2011. No dia 28 de outubro de 2011, sua máquina de suicídio foi a leilão em Nova York por mais de US$ 200 mil.

Caso tenham curiosidade de saber sobre a história de ativismo do Doutor Morte basta ver o documentário produzido pela HBO, You Don’t Know Jack, nele Al Pacino faz o papel do Dr. Kevorkian.

Agora que adentraram ao universo do Dr. Morte, vamos a faixa em sua homenagem. “Dr. Kevorkian” já se inicia com o barulho da máquina de batimentos cardíacos em regressão simbolizando a morte. A música fala sobre o desejo de morrer e de encontrar a paz. O cansaço com um mundo que não foi feito para a personagem viver. Seu instrumental é caótico feito uma canção do Dwarves, com elementos alá apocalípticos nas levadas de Dead Kennedys e Fugazi.

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Baise-Moi (Fuck Me) – 2000: é um filme francês do gênero Suspense/Erótico

Cinéfilos por natureza, a música “Baise Moi” não poderia ficar de fora do contexto da sétima arte. Desta vez o filme escolhido foi o filme francês Baise-Moi (Fuck Me) 2000 nele duas garotas (Manu e Nadine) após passarem por situações traumáticas, são marginalizadas pela sociedade ao embarcarem em uma jornada destrutiva de sexo e violência. Quebrando normas e matando homens, elas provocam controversas cenas pela estrada da França.

A canção tem a essência do The Cramps com inspirações em Little Richard e grandes artistas do rockabilly. Algo que o Stray Cats faz muito bem e deve ser sempre lembrado. Assim como no filme, eles exploram a sexualidade das personagens através das letras que tem trechos de práticas nada ortodoxas como o gang rape. Em sua letra eles falam da vontade e da apreciação pela arte do sexo, com trechos em francês.

Para melhor introduzí-los a faixa que fecha o disco, vamos falar sobre o Punk Jazz. Esta fusão de gêneros tão bonito e cheios de contrastes ao mesmo tempo. Na explosão de tribos de Nova Iorque dos anos 70 – que em teoria a série Vynil deveria abordar – contendo o punk rock, o rap e a disco music, muita coisa foi feita e muitas misturas interessantes foram agregadas para se destacar no meio da multidão.

Artistas como Patti Smith, Television e o próprio The Damned chegaram a tentarem misturar elementos da Jazz-fusion no caos punk dos grupos durante o fim daquela década. O que fez chegar a Inglaterra através de artistas como Nick Cave que se inspirou na mescla de estilos para lançar os primeiros materiais do The Birthday Party. Nossa querida Lydia Lunch – lembram dela na virada cultural de alguns anos atrás? também bebeu da mesma fonte.

Assim como os hardcorers do Bad Brains, Henry Rollins do Black Flag (em ambos projetos BF e Rollins Band) que cita ser influenciado pelo jazz japonês alternativo e claramente Mike Watt do lendário Minuteman que se afogava durante várias noites ouvindo John Coltrane. Uma banda que é super legal destacar a título de curiosidade é o Captain Beefheart que chegou a misturar no-wave com free jazz e punk sujo. Para entrar na atmosfera, logo indico um petardo sonoro nessa linha, com o clássudo The Cravats.

Mais do que introduzidos ao caótico e bonito, Punk Jazz. Vamos a “There Is No Rule At All”, que coloca toda a veia da confusão em desordem em órbita. Ela chega de mansinho como quem não quer nada, lentamente te extende a mão e pede passagem. Quando você vê, ela roubou sua companheira de dança.

Seu início lembra um pouco a levada rockabilly de “Stray Cat Strut” (Stray Cats) em versão jazz, conforme ela cresce ela ganha elementos de punk e estralos de dedos que choram junto aos metais. Sendo um jazz-rock’n’roller como “Jimmy Jazz” do The Clash.

A música mistura tanta coisa que consegue passar sua mensagem central: Não há regras no caos, meu caro.

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O primeiro full-lenght do Porno Massacre veio para subverter e de certa forma rir da estrutura tacanha da sociedade. Que se priva de ter predileções, de demonstrar seu lado mais carnal e de buscar a sua verdade pessoal. Você pode não concordar com tudo que eles dizem nas letras, mas se se sentir incomodado: ligue o alerta vermelho. Com tom de deboche bem humorado, o disco passa rápido e te deixa com sensação de quero mais (não no sentido sexual da coisa – é bom explicar afinal: tudo para eles é na base da perversão).

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