Projeto 2005 e a arte de regravar os clássicos do Emo nacional

O começo dos anos 2000 trouxe a tona uma próspera cena musical no underground brasileiro. Para alguns isso resultou em algo maior e para outros foi apenas uma moda passageira da puberdade, recheada de espinhas, munhequeiras, franjas pro lado e colares de bolinha.

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Sim, hoje vamos falar do EMO, mas não aquele emo dos anos 80 de bandas como Rites Of Spring, Fugazi, Embrace, Dag Nasty provenientes da cena de hardcore de Washington. Aquele “Outro Emo”, repleto de corações (s2), músicas de amor e recheado de desilusões amorosas.

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O estopim de tudo foi quando a banda CPM 22, explodiu com o disco que veio a se tornar clássico do estilo: A Alguns Quilômetros de Lugar Nenhum (2000). Claro que a cena não era composta apenas por uma banda, e isso fez com que o interesse por grupos como Sugar Kane, Dead Fish, Garage Fuzz, Hateen, Dance Of Days, Street Bulldogs, Noção de Nada, Deluxe Trio dentre outros apenas aumentasse por parte da grande mídia.

Isso abriu espaço para muitas bandas. O palco de lugares como o finado Black Jack e Hangar 11 começou a ser disputado por um número enorme de grupos querendo tocar. Do dia para a noite parecia que todo mundo queria ter uma banda.

Isso fez com que uma porção de fãs ficassem alucinados por ingressos. Lembro muito bem de ter amigos que iam na bilheteria do Hangar e nas lojas da Galeria do Rock comprar ingressos para shows que jamais iriam. Com o intuíto de revender e tirar uma grana nessa.

Afinal de contas o fervo era enorme e o legal era ir pro rolê desfilar seu all star, paquerar, se divertir, além de claro cantar as músicas ao vivo que previamente tinha decorado durante a semana – em que também aproveitava para atualizar os posts no Fotolog, descobrir as bandas gringas no Purevolume, passar horas arrumando o layout do Myspace e conhecer a galera pelo Orkut (Orkontros Oi?), claro. Sem contar do look mega elaborado com direito a munhequeiras, maquiagem pesada, boné para o lado (para os garotos) e colares de bolinha (para as garotas). Que rendeu matéria no Fantástico (ver redublagem) e Jornal Hoje (ver redublagem).

A partir disso veio a geração seguinte que mesmo no meio de muitas bandas de qualidade questionável – que estavam se formando – conseguiram se destacar no mainstream como: Nx Zero, Glória, Fresno, Cueio Limão, Forfun e Vowe. Tudo isso muito bem documentado diga-se de passagem no excelente documentário: Do Underground ao Emo (2013), dirigido por Daniel Ferro.

Em entrevista para o Portal Terra, Nenê Altro (Dance Of Days) até comentou:

“Por mais que muitos enxergaram aquilo apenas como um movimento meramente musical, se isso trouxe pessoas para a margem da coisa; se isso trouxe às pessoas para o questionamento do “se eu quero eu posso fazer”, que é a essência do DIY, do faça você mesmo, então já foi válido. Isso fica. Isso não vai sair do caráter que se formou nessas pessoas. Não vai sair da opção de vida que se criou nelas. E isso vale mais que qualquer revolução social de fachada que se impõe sobre as pessoas”.

Devidamente apresentados ao universo do Emo e emocionalmente preparados para o que está por vir: hoje vamos conhecer um pouco sobre o nostálgico Projeto 2005.
Este que é composto por Robson Assis (“Robas”) que empunha o violão e Mariana Watanabe (“Mariri”) que solta a voz.

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Robson Assis (“Robas”- Violão) e Mariana Watanabe (“Mariri”- Voz) durante show realizado no Parque do Carmo no último mês de Agosto. Foto Por: Débora Ricci

Em meio a nostalgia e um turbilhão de emoções – que vieram após ver os vídeos deles no canal de Youtube do projeto – conversei um pouco com eles.

[Hits Perdidos] Primeiro gostaria de saber sobre a origem do projeto, como se conheceram e tal?

Mariri: “Uma das minhas melhores amigas é uma das melhores amigas do Robas também. Nos conhecemos e tivemos uma sintonia de ideias bem grande, desde o início. Estava numa fase bem difícil e procurava caminhos para me reerguer. Chamei o Robas para esse projeto e ele aceitou. No começo, a gente era bem tímido e depois fomos encontrando caminhos juntos, o que foi muito mais do que imaginávamos.”

Robas:”Acho que desde a primeira vez que nos falamos, nós conversamos sobre tocar essas músicas, relembrar essa época e fazer algo nesse sentido. Da primeira vez que tocamos juntos foi tão natural que parecia que a gente tocou junto a vida toda. Rolava mesmo uma semi timidez no começo, mas Mariri é a melhor parceria musical que já tive na vida, de longe.”

Confira o vídeo da apresentação do projeto no canal de Youtube:

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[Hits Perdidos] Como foi lidar com o fim do Fotolog, tão importante para essa ”era” emo?

Mariri: “Hahahahaha. Foi meio bom, porque, de certo modo, eu morria de vergonha que alguém achasse alguma coisa do meu fotolog, mas foi um turbilhão de emoções também. Altas lembranças, bandas que conheci por lá.”

Robas: “Cara, eu lidei com o fim do fotolog quando deletei o meu primeiro e não consegui reavê-lo (tinha uma foto linda de um poste de luz na favela), depois fiz outro com muitas coisas, mas nada demais. Acho que as pessoas desistiram né? Igual o Myspace, foi perdendo o sentido. Eu ainda gostava, inclusive, uma das primeiras coisas que fiz digitalmente pelo projeto foi criar um fotolog. Ok, foi usado umas duas ou três vezes, mas nada mais justo né.”

No vídeo de apresentação eles brincam com quem teve visual do que, com as roupas, munhequeiras e afins. E em clima nostálgico eles comentaram sobre o assunto:

Mariri:“Ah, cara, nossa, que vergonha dessa coisa mais estética, né? Sair todo dia naquela montação toda, levava um tempo. Alisar a franja, usar munhequeira, colar de bolinhas. Era muito uó. Sobre isso, pelo menos, eu sempre penso: “nossa, que bom que passou”. Agora, as vivências, isso eu sinto falta. Talvez de ter uma maior inocência na alma, sabe? Não ter tarefas da vida adulta, ter como maior preocupação o show da Fresno ou comprar o cd novo do Dance. Isso faz falta.”

Robas:Uma época mágica em que era comum uma pessoa sair na rua com uma camiseta vermelha do chapolin escrito HC (sim, estou falando de mim). Eu acho que era uma coisa de subverter. Aquela da Puma escrito “PUNK”, todas essas sacadinhas. Usei munhequeira e usaria de novo, fica aí meu apelo pela volta das munhequeiras.

[Hits Perdidos] Qual o critério para escolherem as músicas? Vejo que rola até art popular, Soweto, Exaltasamba, Raça Negra no meio disso tudo, bacana.

Mariri: “Então, a gente é meio caótico. Meio que sem muito planejamento. Vamos escolhendo as músicas pelos meses e tem algumas coisas que temos muito desejo de tocar, como foi o Blink, por exemplo. Às vezes, a gente resgata todos os pedidos da página e usamos isso para escolher também. A semana de pagode foi uma brincadeira, porque desde que a gente começou, as pessoas iam na página e pediam muito Molejo e Raça Negra. Tanto eu quanto o Robas somos apaixonados por pagode e falamos: “por que não?”. Foi um experimento bem divertido.”

Robas: “A semana pagode 90 foi uma brincadeira em homenagem aos 2000 likes no facebook. Perdemos alguns depois disso, mas foi interessante ver a reação da geral. O pagode 90 pra algumas pessoas é como se fosse o abraço dos pais em público quando você é adolescente. Todo mundo gosta, mas na frente dos outros causa estranheza.”

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O projeto teve inicio sem muitas pretensões mas tem chamado bastante a atenção da cena. Foto Por: Débora Ricci

[Hits Perdidos] Como são as gravações? Tudo em casa mesmo total D.I.Y?

Mariri: “São na minha casa, na maior parte das vezes, tudo bem “caseirão, o celular apoiado numa pilha de livros e é isso. Tivemos uma gravação que foi feita pelo Kaio Ramone também, que foi bem legal.”

Robas:Total DIY, mesmo os vídeos do Me Ensina, vlog de videoaulas que comecei a fazer que são editados, sonorizados por mim, feitos na minha casa e tal (A Conan House Films fez o último que ficou bem bacana, diga-se de passagem). Estamos começando também a criar uns vídeos em formatos de vlog mesmo, falando e trocando umas ideias. Esses também vão ser editados por mim, provavelmente.”

[Hits Perdidos] Qual cover vocês mais se orgulham de ter gravado e qual seria o maior guilty pleasure musical de vocês?. Afinal de contas sabemos que todo emo esconde que gosta de certa banda ou outra.

Mariri: “Nossa, a gente já tem tantos covers, que fica difícil escolher um. Gosto muito de “Seguro Demais”, do Pense, porque a gente tava envolvidão para gravá-lo. Esse vídeo tem uma sintonia absurda. Em termos pessoais, gosto muito de covers que foram desafiadores em termos de vocal, como o do Envydust e o do Rancore, porque tanto o Max Machado quanto o Teco Martins são grandes referências para mim.

Guilty pleasure tem muitos, um monte deles (risos). Eu gosto muito de música pop, né? Sou muito fã da Britney, da Gaga e da Christina Perri. Outro dia, me falaram que Tiago Iorc é ruim e eu fiquei em choque, porque sou completamente apaixonada por tudo o que ele faz. E o pagode, ah, o pagode heart emoticon. Dos emos, confesso que ouço Nx Zero até hoje.

Robas:Me orgulho muito de ter gravado Dumb Reminders do No Use For A Name. É dessas músicas que conversa com a gente, que abraça o que a gente tá vivendo. Eu morei no interior de SP uma época, fugindo da vida daqui, e toda vez que eu entrava na cidade, eu botava essa música pra tocar. E da primeira vez que a gente tocou não tive como segurar as lágrimas. Outras duas que me orgulho bem de ter gravado são as duas do Pense que gravamos na semana de bandas novas, “Expansão da consciência” e “Seguro demais”, que foram gravadas tarde pra caramba, tipo 3 da manhã, cansados e saíram lindas.

Dos guilty pleasures, não tenho muitos problemas em assumir que curto as coisas. Mas posso citar como que curto 3 músicas da Cone Crew mesmo achando uma ideia fraca (sample da Nina Simone, sabe). Curto Boka Loka e acho que é uma das coisas mais subestimadas no pagode.

Depois dessa fica até difícil deixar de postar o vídeo de Dumb Reminders. PS: RIP Tony Sly.

Aproveitando o clima “gringo”,  a uns 4 anos atrás (o tempo voa meu amigo) conheci o projeto Billy + Joe. Nele o casal Billy (Billy The Kid) e Joe Mcmahon (Smoke Or Fire) se aventuraram – para ajudar a financiar o novo álbum do Billy The Kid em campanha via Kickstarter – a regravar durante 30 dias 31 covers naquele esquema by request (lógico que para pedir tinha que deixar uma pequena contribuição).

Além disso, eles gravaram o vídeo em todos os cômodos – possíveis e não possíveis – da casa, algo que entretinha ainda mais o público. Já que o post é sobre EMO, vai logo um clássico que eles regravaram:

Como os projetos de certa forma tem propostas similares, logo liguei os pontos e fui perguntar se eles já tinham ouvido falar sobre.

[Hits Perdidos] Já ouviram falar sobre o projeto Billy+Joe? Se sim, se inspiraram de alguma forma?

Mariri:“Não conhecia o projeto deles, acabei ouvindo porque você disse e gostei bastante.”

Robas:“Também não conhecia, mas manerasso hein! cover de Samiam, Radiohead, até o Billy Bragg heart emoticon na verdade não nos inspiramos em ninguém. Foi realmente uma ideia que surgiu porque Mariri já gravava uns vídeos sozinha em casa e que botamos em prática sem a menor pretensão.”

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Projeto 2005 em show no famoso vão do MASP realizado no fim do mês passado. Os shows da banda costumam ser realizados em praças, ruas e parques da cidade de São Paulo.

[Hits Perdidos] Alguma banda já viu a versão que vocês fizeram e de alguma maneira se manifestou de maneira positiva?

Mariri:Acho que muitas bandas viram. As pessoas se mobilizam muito pros nossos covers chegarem até as bandas e isso é incrível. A primeira reação que tivemos foi a do Bil, quando gravamos Dialeto, e ele compartilhou no próprio perfil dele. Ganhamos as nossas primeiras curtidas ali. E se estabeleceu uma relação de carinho muito grande com ele.

Depois, gravamos uma semana com Zander, Noção e Deluxe Trio e, então, fui chamada para cantar com Zander, num show no Inferno. Já cantei, também, com o Plastic Fire, que também se tornaram pessoas muito especiais e queridas pra gente. E com o Teco Martins que foi uma coisa surreal, por ele ser a minha maior referência musical. O Horace Green, o Running like lions, o Chuva Negra, o Pense são bandas que nos apoiam muito.”

Robas: “O retorno positivo dessa galera é sensacional, cara. As pessoas sentem o quanto isso é importante pra gente, o quanto a homenagem é de verdade. Nessa fizemos muitos amigos, temos pessoas próximas que jamais imaginamos ter.”

[Hits Perdidos] Qual banda que vocês mais se emocionariam se fossem convidados para subir no palco junto para tocar?

Mariri:Acho que já toquei com uma das minhas bandas prediletas que foi o Zander e isso foi muito mais do que eu poderia imaginar. Nos meus sonhos dourados, seria lindo cantar “Mulheres Negras” com o Dead Fish, algum dia. Ou mesmo cantar com o Nx Zero (viu, gente? Eu gosto mesmo, não é zoeira).”

Robas:Me emocionaria tocar num acústico desses estilo MTV com banda inteira, bateria de vassourinha e tal, mas acho que o Chuva Negra é uma das que mais ouço e mais seria incrível tocar junto. São caras gente fina, daora quando nossos ídolos são gente da gente, que pegam metrô, que sobrevivem, sabe? Acho que essa. E talvez, daquela época, teve um show do Dance no Hangar 110 em que todo mundo se jogou do palco no stage dive. Eu queria muito ter subido lá e tocado qualquer umja do Valsa de Águas vivas (risos).”

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Projeto 2005 em ação. Foto Por: Débora Ricci

[Hits perdidos] Pude ver que nesse meio tempo também já realizaram alguns shows. Como funciona? É acústico como nos vídeos ou é elétrico? Alguma data a vista para os leitores do Hits Perdidos ficarem ligados?

Mariri: “A gente faz uns shows em parques e na rua, no mesmo modelo que o Teco Martins e o Érico Junqueira (Valentin) fazem. Rodinha de violão, acústico, todo mundo tocando. E já fizemos em estúdio também, com microfone e o violão plugado. Agora em março, devemos tocar na Praça Roosevelt.

[Hits Perdidos] Vocês tem pretensão de gravar algum som próprio algum dia? Possuem outros projetos?

Mariri: “Estamos com um projeto de uma banda, naquela fase de composição e começar a tocar junto. O Robas tem um projeto que chama We Hit Concrete, que é puro amor.”

Robas: “Possuo muitos projetos (risos), mas o We Hit Concrete sou eu cantando violão sozinho, o que dá menos trabalho do que uma banda, então é o que geralmente eu faço além do projeto.”

Você pode conferir mais material do projeto solo do Robas, We Hit Concrete, aqui. Numa rápida conferida me lembrou um pouco de Polara, Street Bulldogs e a carreira solo do Trevor Keith (Face To Face).

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[Hits Perdidos] O que acham desse movimento de festas começarem a explorar também a mesma temática do emo 2005 na noite paulistana?

Mariri: “Pelo que vi, apesar de não ter ido a nenhuma dessas festas, eles pegam muito mais as bandas gringas que vieram no fervo do que era emo, né? Mas esse não foi um universo muito meu. Acabei vivendo bem mais as bandas daqui, então, não me empolgo tanto em ir nessas festas. De todo modo, acho que nostalgia é maravilhoso. Conecta a gente com coisas boas das nossas histórias, então, acho legal. Só podia voltar a ser open bar por 10 reais (risos).

Robas:Eu acho legal, quem tinha 20 anos em 2005 e tava bebendo vinho barato na saída da Outs hoje tá gastando nas baladinhas revival. Eu me incluo nessa geração aí, acho importante lembrar uma época importante assim pra nossa formação.”

Então é isso pessoal, homenagens sempre são bacanas ainda mais quando sentimos que é de verdade. Afinal, lembrar de uma fase tão boa da vida: é sempre como se fosse um presente. Afinal a vida é feita de pequenos momentos, porque não relembrá-los?

Fiquem com o último vídeo postado, um belo cover de “Velocidade” do Sugar Kane, ouve essa Capilé!

augu
Arte Por: Augusto Miranda

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