15 anos depois de Thirteen Tales From Urban Bohemia: Por onde anda o The Dandy Warhols?

No último mês de agosto o álbum, Thirteen Tales From Urban Bohemia (2000), completou 15 anos. O que automáticamente fez eu me questionar: Por onde anda o The Dandy Warhols?


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Acredite se quiser, o quarteto está na ativa, firme e forte: Obrigado. Toda essa aventura começou na – talvez – cidade mais hipster dos Estados Unidos, Portland, OR no ano de 1994.

Originalmente a banda era composta por Courtney Taylor-Taylor (Vocais/Guitarra), Peter Holmström (Guitarra), Zia McCabe (Teclados) e Eric Headford (Bateria). Só que em 1998, o caldo engrossou para o lado de Eric, que por sua vez decidiu travar uma batalha judicial para conseguir royalties pelo trabalho. Curta longa história: Brent DeBoer, primo de Courtney Taylor-Taylor se tornou o novo baterista dos Dandy Warhols.

Curiosidades a parte, Eric Headfort em 2003 desistiu da neo-psicodelia e formou uma nova banda de new wave chamada Telephone que naquele ano lançou um EP.


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Mas a história da formação da banda digamos que justifica o auge ter acontecido justamente no terceiro disco de estúdio, Thirteen Tales From Urban Bohemia (2000). Sabe aquela história de que as coisas acontecem e viram mesmo quando existe uma verdade intrínseca? Então, é exatamente esse o caso dos Dandy Warhols.

Os guitarristas Courtney e Peter foram os primeiros a entrar na banda, logo em seguida Eric topou fazer parte da percussão. Após uma tentativa mal sucedida de Courtney Taylor-Taylor colocar a namorada da época para assumir o baixo, eles tiveram que procurar outro baixista. A tecladista Zia McCabe, entrou para a banda depois de Courtney a avistar trabalhando em uma cafeteria.

Mas vocês devem estar se perguntando: Ok, mas e a tal verdade?

Acalmem-se, irei contar agora.

No começo da banda Courtney descrevia a banda como: “um grupo de amigos que precisava de música para beber”. Ou seja, bohemian tales: façam as contas. Mas enfim, a banda foi ganhando reconhecimento logo em seus primeiros anos devido a suas implacáveis apresentações ao vivo.

E se a Miley Cyrus e o The Flaming Lips se acham moderninhos por fazer show privado do jeito que vieram ao mundo. Os Warhols logo pedem passagem. Visto que estas apresentações ao vivo dos primeiros dias de banda eram recheadas com muita nudez em suas performances.


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Após uma investida do pequeno selo, Tim/Kerr Records, eles assinaram um contrato para gravar o que seria seu primeiro álbum. O reto e direto Dandys Rule, Ok (1995) e se você acha que a banda encontrou a sonoridade e fez um estupendo álbum de primeira: meu amigo, errou feio.

O disco mistura rock de garagem, Brit-Pop e Shoegaze. É cheio de desvaneios e apesar de beirar a psicodelia dava para perceber um certo potencial neles.

Com uma resalva: o som era algo que caia um pouco na vala do comum. Pensando no mundo em 1995, onde Jesus And The Mary Chain e as bandas da Creation Records eram THE THING nas rádios alternativas de Portland.


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O primeiro álbum do The Dandy Warhols, Dandys Rule Ok, saiu pelo pequeno selo Tim/Kerr Records no ano de 1995

O álbum foi o suficiente para impressionar uma major, os dias de shows em bares pequenos, pareciam cada vez mais distantes com a entrada na Capitol Records em 1996. No ano seguinte era lançado o segundo disco, The Dandy Warhols Come Down (1997), álbum que conseguiu emplacar três singles no Top 40.

A crítica chamou esse trabalho de mais polido, menos garageiro e mais powerpop. Temos que concordar pois estas observações são bastante pontuais, porém por outro lado o powerpop parece ter sido uma porta de entrada para o que estava por vir.



O canal de youtube Rocket Reviews fez uma resenha super bacana sobre este álbum:



Vale lembrar que esse álbum tem uma música chamada “Cool As Kim Deal”, fãs de Pixies acalmem-se caso desconheçam a canção:



E assim chegamos em 2000, entre os medos que assolavam a humanidade como o fim do mundo – que nunca veio – o bug do milênio – que foi a maior farsa dos últimos tempos – e naquele primeiro de agosto daquele ano o álbum nascia: Thirteen Tales From Urban Bohemia (2000). 

Maior sucesso comercial da história da banda, o álbum se justifica em muitos pontos. Se você pega para ouvir hoje em 2015, além de achar ele recheado de temas que ainda mexem com a cabeça dos jovens, ele parecia um verdadeiro livro de contos. A narrativa das canções conta histórias, provavelmente pessoais, mas para saber isso só conversando com a banda mesmo.

Mas o que fascína mesmo é a qualidade e a quantidade de hits que ele contempla. Tem músicas ali que são atemporais. Apesar de muitos apenas de primeira associarem eles a este single implacável:



Apesar da canção ter todo esse lance de te contar aventuras bebuns e ter um caráter brincalhão, a música tem um clipe totalmente voltado para um tema super importante na vida de qualquer pessoa: A auto-aceitação.

Com aquela mensagem motivacional mas ao mesmo tempo descontraída: Se aceite mas principalmente se divirta do jeito que você é. Se olharmos para o ano 2000, ela faz todo o sentido, o mundo estava se libertando de certa forma, modismos estavam cada menos centralizados e a internet estava mexendo com a cabeça de todos.

O legal mesmo era ser você mesmo, se observarmos os VMA’s da época, víamos isso no discurso de vários artistas que vinham surgindo. Era a tônica daquela geração.

Mas questionamentos a parte não podemos esquecer que esse álbum tinha outras grandes composições. Quando disse que o Powerpop mudaria a vida deles: eu não estava brincando.

Neste álbum eles deixam a psicodelia de lado e se aventuram nas ondas do Powerpop.



A irônica “Godless”, conta a história de uma pessoa religiosa que dá as costas a um ateu. A melodia é um contraponto ao som divertido e animado de “Bohemian Like You” e mais uma vez prova que as 13 histórinhas do disco convergem em um tema:
a aceitação de você mesmo perante o mundo. O conflito interno da auto-afirmação e a dor que isso causa.



“Horse Pills” mostra como a sociedade procura por um estilo de vida junkie como forma de escapismo. De fugir da aceitação da vida que por muitos momentos parece medíocre e cheia de frustrações.



“Get Off”, fala do conflito interno de querer se encontar X não querer. Os medos e complicações que tamanha decisão nos implica. Será que deus existe mesmo? Será que existe um paraíso? Ou será que vivemos em vão?
Para complementar a melodia é tão chiclete que você fica murmurando os acordes mesmo sem saber a letra de côr.



“Nietzsche” assim como o filósofo, questiona implicitamente a necessidade de um Deus. A fúria por querer encontrar uma seita/religião para chamar de sua.

O querer ver e tocar Deus. A negação em sua essência. Alguns conflitos de um agnóstico querendo se encontrar no plano espiritual com um único propósito: encontrar respostas para os dilemas da vida.

Os versos deixam isso bastante claro:

I want a god who stays dead, not plays dead
I, even I, can play dead



Nihilismo de Nietzsche, ouvir Sonic Youth e nada mais importar é o que “Cool Scene” te trasmite. Ela fala sobre não se importar mais com as coisas que acontecem a sua volta pois não é possível encontrar repostas.

I really don’t know what I mean, and it really isn’t worth the trying
I’m feeling pretty chill with nothing
like I’m livin’ in a world that follows you
And I really think you know your friends man
like you’re livin’ in a social hydrant

“Big Indian” já tenta justificar a vida através de Karmas e o medo do futuro que parece sempre assustador. A busca por meios alternativos de justificar a existência humana e mais uma vez: o conflito interno de se aceitar como é. Nesta canção a psicodelia chia na guitarra e abraça o powerpop.



Pois é, para quem achava que era um disco de histórias de bêbados tem que lembrar: bêbados tem sempre teorias filosóficas interessantes e grandes histórias para contar. Se for letrado provavelmente em algum momento da vida lerá Nietzsche, procurará saber sobre religiões antigas e usará isso de uma maneira inteligente. Afinal, são conflitos que permeiam a humanidade desde seu princípio.

Vale lembrar a correlação entre o tema apocalíptico e o fim do milênio. Afinal estávamos em 2000 e o discurso se encaixa no tempo e no espaço. Grande gancho, bons músicos e belíssimo disco.


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Mas de lá para cá, o que aconteceu com Warhols? Apenas digo, lançaram 6 discos: Welcome to the Monkey House (2003), The Black Album/Come On Feel The Dandy Warhols (2004), Odditorium or Warlords of Mars (2005), …Earth to the Dandy Warhols… (2008), The Dandy Warhols Are Sound (2009), This Machine (2012). E um ao vivo em 2014, apenas tocando canções do aclamado: Thirteen Tales From Urban Bohemia (2000).

Ah, vale lembrar que em 2000, após tocarem no Glastonbury, ninguém menos do que David Bowie se interessou pelo som da banda e se tornou fã confesso. Em 2002 chegaram a tocar juntos com o mestre, em um festival, a canção escolhida para tal encontro foi “White Light/White Heat”.

Uma pena não existir vídeo na internet registrando esse momento histórico. Mas a história não acabou por aí, no ano seguinte Bowie convidou eles para abrirem seus shows durante sua turnê.


David Bowie 2003 04 20 - the Dandy Warhols - Paris Bercy


Em 2003, foi o ano do álbum Welcome to the Monkey House (2003) chegar ao mundo. Ele foi produzido por Nick Rhodes, sim, do Duran Duran. E logo se destacou pelo som cheio de teclados. O ponto alto ficou pela radiofônica “We Used To Be Friends”. Música que chegou a ser tema da série The O.C. e a entrar na trilha de jogos de videogame como FIFA.



O disco ainda contou com essa oitentista “I Am Scientist”, entenderam o Duran Duran no meio da coisa toda, não? Ah, vale lembrar que David Bowie co-escreveu essa música.



O single, “You Were Here Last High” também é uma parceria em sua composição. Desta vez quem co-escreveu foi Evan Dando, eterno vocalista do Lemonheads.



A referência do nome do álbum vem do livro de Kurt Vonnegut, de mesmo nome, lançado em 1968. As influências na arte da capa são claramente inspiradas em Velvet Underground em seu clássico álbum. O álbum foi bem recebido pela crítica e a fase era até então de ouro: onde tudo dava certo.


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Depois disso a banda viveu um momento um pouco rebelde e conturbado em que decidiu lançar de modo independente o álbum The Black Album/Come On Feel the Dandy Warhols (2004), este que era composto por B-Sides não aprovados pela Capitol Records.

E claramente isso se sucedeu um pouco mais amenizado no álbum seguinte com o disco Odditorium or Warlords of Mars (2004), no qual a psicodelia deixada lá atrás voltou com tudo. O nome do álbum é uma homenagem ao livro Warlords of Mars do escritor, Edgar Rice Burroughs – mais famoso por ser o autor de Tarzan.

Um fruto disso foram duas composições em parceria com Miles Zuniga – não confundir com o atacante que lesionou Neymar na Copa de 2014 – que é mais conhecido pelo trabalho na banda Fastball. Nos singles “All the Money or the Simple Life Honey” e “Smoke It”.




Como logo já avisei, o alerta da luz vermelha tinha sido apertado. Após um álbum com críticas abaixo da média era o fim de uma era, o adeus ao tempos de Capitol Records veio em 2008. E talvez isso explique um pouco do porque ficamos sem notícias no país depois de tanto tempo consumindo clipes deles nas MTV’s da vida.

Logo após a banda assinou com a Beat the World Records e se aventurou em fazer um álbum com influências de música eletrônica, o que desapontou a todos e a imprensa como sempre: cavou a cova da banda com o álbum …Earth to the Dandy Warhols… (2008). Em 2009, o grupo lançou um disco de remixes de antigos sons, The Dandy Warhols Are Sound.



Após tempos conturbados na gravadora independente – em que não tinha distribuição, divulgação e tudo que é necessário para dar a volta por cima – em 2012 eles lançam o disco This Machine pelo selo The End.

O álbum não foi a verdadeira volta por cima da banda mas permitiu trabalhar com David J, ex-Bauhaus na canção “The Autumn Carnival”. Além de ser co-autor da letra, David participa nos backin vocals da faixa.



Aliás, era uma época estranha para os Warhols, onde só a Austrália parecia ainda se importar com eles. É até engraçado lembrar que dez anos antes The Dandy Warhols e The Brian Jonestown Massacre viviam no esquema: Amor x Ódio.
Para quem quiser dar boas risadas com essa história fique com o documentário Dig! (2004).



Mas como Karma Is A Bitch, depois de tanto se amar e odiar o guitarrista Peter Holmström hoje em dia é frontman da banda Pete International Airport, na qual possuí Collin Hegna do The Brian Jonestown Massacre no baixo, ou seja, tudo em casa. Ficou curioso para saber como é o som do grupo?



Como dito anteriormente em 2014 foi lançado o álbum primeiro álbum live em homenagem ao disco digamos mais redondinho da carreira dos eternos hipsters do psycho-powerpop-rock de Portland. E a saudade, é o que fica.

A era de ouro e a decadência em pouco mais de 21 anos juntos. Uma trajetória que já os proporcionou grandes singles e múltiplas parcerias com gente bastante talentosa do mundo da música. E como diria um dos hits deles: “A long time ago we used to be friends…”

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